Uma criança e um balde: tragédia anunciada
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quinta-feira, 25 de novembro de 2004
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Apesar dos cuidados que os pais têm com os filhos, acidentes domésticos acontecem nas melhores famílias. ''Algo que você nunca imagina que acontecerá com o seu filho''. A afirmação é do soldado socorrista do Siate, João Barbosa Freire, 40 anos, que na semana passada salvou uma criança de cinco anos, vítima de afogamento numa piscina, e, ontem pela manhã, soube pelo rádio da viatura que seu filho de apenas um ano estava se afogando num balde com água e sabão.
Ao saber do acidente com o filho, o soldado prestava atendimento à artesã Elza Pereira Tranin, 61 anos, no Centro de Referência do Artesanato de Londrina (Cereal), vítima de disparo de arma de fogo (leia na página 4).
João Felipe Dionísio Freire está aprendendo a andar e brincava perto da mãe. No chão tinha um balde de 20 litros, quase cheio de água e sabão. A família mora na Vila Antonio Benzoni Vicentini (Zona Norte).
Bastou um minuto para a criança cair dentro do balde, sendo socorrida por policiais militares até a chegada de uma equipe do Siate ao local.
Acostumado a salvar vidas, o soldado Freire resume numa frase a situação pela qual passou e que desperta a consciência: ninguém está livre de acidentes domésticos com crianças.
- ''Foi uma ironia do destino''.
Internado no Hospital Infantil, o menino chegou a perder a consciência no quase afogamento. O médico cirurgião pediátrico, Mauro Roberto Basso, que acompanha o caso, é plantonista do Siate e do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), e também pertence à organização não-governamental (ONG) Criança Segura (Safe Kids) - um organismo internacional, fundado nos Estados Unidos pelo brasileiro Martin Eichelberger, e que trabalha com programas de prevenção à acidentes de crianças dos 0 aos 14 anos de idade.
Basso disse que o menino deve ter ficado cerca de 1 minuto com a cabeça mergulhada na água, mas que o estado de saúde dele era considerado bom, devendo ter deixar o hospital ainda hoje.
O casulo de proteção de nossa casa, como a idéia de lar propõe, é mais fácil de ser rompido pelo vilão dos acidentes domésticos do que imaginamos.
Uma falsa sensação de proteção que não evitou que 31 crianças no período de 1998 a 2001 fossem vítimas de afogamento e asfixia em Londrina. Deste total, sete crianças morreram - de acordo com informações do Siate e que compõe os dados apresentados pela ONG, que criada há 15 anos. Nesse período, conseguiu reduzir em 40% os acidentes domésticos nos EUA.
Afogamentos em baldes, tanques e até banheiras ocorrem principalmente com crianças de um a quatro anos. Não parece, mas cerca de 2,5 centímetros de água são suficientes para afogar uma criança nesta faixa etária. ''Crianças dessa idade têm a cabeça maior que o corpo. Com a ação da gravidade, tende a ficar para baixo. Além disso, as crianças não possuem coordenação motora para sair'', explica Basso.
A coordenadora administrativa da ONG, Julianne Yoshii, diz que o grande problema para se ter estatísticas precisas sobre acidentes domésticos com crianças é que os dados são isolados.
Acidentes como queimaduras provocadas por panelas quentes em cima do fogão, ingestão de produtos tóxicos e ferimentos com objetos cortantes poderiam ser evitados, com alguns cuidados simples.
''Os pais ou responsáveis devem supervisionar as crianças, checando os lugares com potencial de acidentes'', afirma Yoshii, lembrando que para evitar afogamentos em casa é preciso, por exemplo, fechar a tampa do vaso sanitário, deixar a banheira vazia e de boca para baixo, retirando a água de tanques e máquinas de lavar roupa.


