Uma comunidade em busca da cidadania
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 06 de dezembro de 2007
Célia Baroni<BR>Especial para a FOLHA 
As pessoas sabem que são cidadãs e que merecem respeito
Quando, em 1980, a cozinheira Dionísia dos Santos Teodoro, hoje com 55 anos, conseguiu a casa própria no Novo Amparo - Zona Leste de Londrina -, diz ela, ''foi uma benção''. Dona Dionísia e a família tinham acabado de chegar do sítio e estavam tendo dificuldades para pagar o aluguel. ''Meu marido não ajudava mais em casa e tínhamos três filhos para criar. Depois que viemos para o bairro, nossa situação começou a melhorar. Fui bem recebida e fiz muitas amizades que conservo até hoje'', conta.
Ela foi uma das primeiras moradoras do Novo Amparo criado naquele mesmo ano, e conta que se alegra de ver como o bairro tem melhorado nos últimos anos. ''Naquela época, quem precisava de emprego não podia dizer que morava aqui. As pessoas só ouviam falar da violência do bairro. Não entendiam que aqui também viviam muitas famílias boas e batalhadoras'' diz, afirmando que hoje é diferente.
Depois de criar os 5 filhos, dois deles nascidos no bairro, ela garante que não pensa em se mudar. ''Só saio daqui para o Jardim da Saudade'', brinca, referindo-se ao cemitério da Zona Norte, onde já tem um jazigo.
Localizado em um baixio, junto aos trilhos do trem, o Novo Amparo é um bairro de periferia. Mas se a geografia da área dificulta a integração à cidade, a luta dos moradores e a presença do Viva a Vida, programa de assistência da prefeitura e da ONG, Associação Mãos Estendidas (AME), transformaram o bairro.
Casas sendo melhoradas, ruas asfaltadas e limpas e um comércio pequeno, mas atuante evidenciam que a comunidade vem conquistando cada vez mais qualidade de vida. ''Aqui só fica sozinho quem quer. Somos muito unidos. E além da comunidade estar sempre disposta a ajudar, temos vários programas que não deixam ninguém sem apoio'', afirma o presidente da associação dos moradores do conjunto, o garçom Belchior de Farias Barros.
O comerciante Miguel Chaves, 30 anos, também está entre os primeiros moradores do Novo Amparo. ''Cheguei com 2 anos e gosto de morar aqui porque tem muita gente boa'', comenta. Ele conta que decidiu investir no bairro porque sempre acreditou no potencial da comunidade.
Aponta como uma das maiores conquistas do Novo Amparo, o fato de todas as crianças do bairro estarem na escola. ''Na minha época as crianças não chegavam nem até a quarta série. Era difícil sair do bairro para cursar o ensino regular e a maioria desistia e ia trabalhar''. Hoje, acrescenta, é comum ver grupos de crianças indo e vindo das escolas em outros bairros.
O asfalto e linhas de ônibus regulares trouxeram o conforto necessário, mas para Chaves o que mudou mesmo foi a mentalidade dos moradores. ''Ainda falta muita coisa para o bairro ficar realmente bom, mas o mais importante já está acontecendo: as pessoas sabem que são cidadãs e que merecem respeito'', disse.


