Uma comemoração que não é para qualquer um
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quarta-feira, 11 de abril de 2007
Adriana Ito<br>Reportagem Local 
O aposentado Miguel Polskikh completou 80 anos e, de presente, pediu alimentos. Não para si mesmo, já que os mais de 50 anos de trabalho em uma oficina mecânica possibilitaram uma vida confortável para ele e sua família, mas para pessoas mais necessitadas. ''Quer presente melhor do que a festa que ganhei, reunindo toda a família?'', argumenta. A festa, realizada no último final de semana, além de boas lembranças, rendeu também mais de 300 quilos de mantimentos, doados para a Paróquia Nossa Senhora da Paz.
A festa também serviu para comemorar os 75 anos de sua mulher Maria. Eles são casados há 52 anos e, conforme garante o mecânico, sem nenhuma briga ou sequer discussão. ''Sempre que tinha alguma coisa a gente conversava. Ela é e sempre foi a minha grande companheira'', elogia.
Miguel chegou a Londrina em 1935, um ano depois da fundação da cidade. Instalou-se na colônia russa da Usina Três Bocas, juntamente com outras 13 famílias, e precisou desbravar matas e enfrentar, como todos na época, os problemas de uma cidade que começava a surgir.
Difícil perguntar a um homem cuja trajetória de façanhas começa na Sibéria, de onde, aos 8 anos, fugiu com a família do regime comunista e precisou caminhar por 78 dias, quais foram as maiores dificuldades por aqui. ''Levava uma vida normal'', resume, como se fosse muito normal aprender uma profissão sozinho, na prática, que foi como seu Miguel começou a sua profissão de mecânico.
Ele conta que pegou o carro do cunhado emprestado e foi a um casamento. Na volta, bateu na traseira de um caminhão e, sem dinheiro para pagar, arriscou consertar sozinho. ''Já trabalhava como ferreiro desde os 15 anos, mas não tive ninguém que me orientasse, só sabia bater lata e soldar. Pelo menos a lataria eu arrumei. A pintura tive que pagar mesmo'', relembra.
A oficina, aberta na Rua Venezuela em 1953, continua lá e, apesar de estar aposentado, ele ainda passa os dias fazendo pequenos serviços. ''Deixei de entrar em baixo dos carros aos 75 anos, porque comecei a sentir o peso dos anos. Mas continuo trabalhando, porque não consigo ficar parado.''
Apesar de não ter deixado nenhum dos quatro filhos seguirem a sua carreira (''queria que eles estudassem para não precisar fazer trabalho pesado''), seu Miguel repassou aos filhos um exemplo de dedicação ao trabalho. ''O trabalho é um orgulho, é a dignidade das pessoas'', afirma seu filho Miguel Polskikh Filho, que também continuou trabalhando depois de se aposentar. ''O maior exemplo que ele deixou, pra mim, é a honestidade. Meu pai sempre foi uma pessoa correta, não fez mal a ninguém, e por isso as pessoas têm um respeito muito grande por ele'', orgulha-se o filho.
Já o pai, questionado sobre seu maior orgulho, limita-se a dizer que é seu ''sistema de vida, sempre com muita calma. Sem arrumar confusão, que isso não é coisa de gente''. O aposentado afirma também não guardar nenhum arrependimento em sua vida. ''Coisa pequena a gente esquece, e o resto é isso aí'', ensina.


