Uma cidade que todos associam ao vento
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quinta-feira, 05 de abril de 2007
Widson Schwartz<br> Especial para a Folha 
Apucarana - ''Vamos chamar o vento. Vento que dá na vela, vela que leva o barco (...)'', diz Dorival Caymmi em uma de suas canções mais populares. Noutra, menciona o ''vento que assobia no telhado, que balança a palma do coqueiro e os cabelos da morena''. Um personagem com quem deseja dialogar: ''Ó, vento, diga, por favor, aonde se escondeu o meu amor''. Assim, tão inerente, é o vento em Apucarana (115 mil habitantes), referência maior desde os primórdios entre 1938 e 1941, quando causou uma tragédia. Então, impiedosamente o vento derrubou a primeira igreja, levando ao suicídio o carpinteiro japonês que a construíra.
Mas o topônimo Apucarana, de origem indígena, nada tem a ver com ventania; corresponde ao sentido de grandeza territorial ou de grande floresta. No passado, os vendavais açoitavam a floresta; atualmente fustigam edifícios, derrubam árvores e outdoors, tem observado a advogada Juliana Ferracini Sanches. Desde 1978, o edifício da Associação da Indústria e Comércio (Palácio do Comércio), de 15 pavimentos, é o mais alto e ali, em seu escritório no sexto andar, Juliana conta que, por vezes, o impacto ''chega a dar medo''. Tal é a força que o vento se infiltra por onde não deveria, as vedações nas junções das vidraças, favorecendo a passagem da chuva. Para conter essa invasão eólica aplica-se silicone e nos dois últimos pavimentos, sede de Associação, outras readequações se fizeram necessárias, segundo Juliana.
Os apucaranenses, porém, convivem serenamente com essa força da natureza, até mapearam os pontos mais ventilados e não esquecem a contrapartida benéfica. Afinal, a impetuosidade ocorre mais durante o inverno; na maior parte do ano, o vento ameniza o calor, comprova Juliana Ferracini no termômetro do carro, que, em Londrina, ''marca entre dois e três graus a mais do que em Apucarana''.
Quem viaja pela BR-369 de Londrina a Apucarana (70 quilômetros) sai da altitude entre 520 e 620 metros e atinge 983. Daí a ''cidade alta'', onde ''o clima é considerado o melhor do Norte do Paraná'', ressalta a informação oficial do Município. Entre a máxima de 26º C e a mínima de 16º C, a temperatura média anual em Apucarana é de 20,3º C; chove 1.543 milímetros (média) e a umidade relativa do ar é de 69,8%.
''Vim para cá com dois anos e estou vivo, sinal de que o vento só pode fazer bem'', diz o proprietário de bar Sebastião Cuke, morador desde 1960. O pai, Fernando Cuke, havia trabalhado anteriormente em Apucarana, ''puxando madeira em um caminhão Chevrolet 1937''. Há dez anos na cidade, a comerciária Mara Teixeira afirma que o clima ainda é a referência maior, superando ''a capital nacional do boné'', percebendo isso entre pessoas de outros lugares que entram na loja em que trabalha e comentam. Geralmente, antes de conhecer a cidade ouviram falar do clima, segundo Mara.
Onde mais venta é no cruzamento da Avenida Curitiba com a Rua Oswaldo Cruz, segundo a quase unanimidade das opiniões. Os passantes sentem o impacto e até mesmo diminuem o ritmo da caminhada, observa Juliana Ferracini. Dos escritórios do Palácio do Comércio, quase ninguém sai sem ter os papéis guardados em pastas; se não for assim, ao menor descuido tudo o vento pode levar. Por aquelas esquinas têm de passar os noivos e convidados que vão ao Cartório do Cível, também no Palácio do Comércio, e o que se vê, na maioria das vezes, é eles se tornarem coadjuvantes de cenas em que ''o ator principal'' insiste em levantar saias e desmanchar penteados.
Dificilmente alguém lembra de uma ''calmaria'', mas o vento pode faltar quando menos se espera. Perde velocidade depois das primeiras horas da manhã e não passa de uma brisa na parte da tarde, ''incapaz'' de esvoaçar os cabelos da morena Patrícia Amanda de Oliveira, Miss Apucarana, fotografada na Praça Rui Barbosa. Cursando Design da Moda na UEL, ela é a vocalista da banda de rock ''Kamikazes''.


