No Centro de Londrina, dois amigos se despedem: ''Então, até amanhã, estou indo para a minha chácara em Primeiro de Maio'', diz um. ''Ah, é, eu também vou pra minha chácara'', retruca o outro. ''Ué, eu não sabia que você tem uma chácara, onde é?'', pergunta o primeiro, e o segundo dá o endereço: ''É na rua Souza Naves; não é tão grande quanto a sua, tem 1.160 metros quadrados''.
Na verdade, a tal ''chácara'' onde mora o pioneiro aposentado Omeletino Benatto e seus irmãos Ousvispertino, Oulinda e Oulevantina, é um terreno de 1.164 metros quadrados localizado na Rua Souza Naves, entre as ruas Espírito Santo e Goiás, ali onde tem uma velha casa, rodeada de árvores frutíferas, uma das áreas mais valorizadas do centro de Londrina. O terreno foi comprado por seu pai, João Antonio Benatto, em 1939, e a casa só foi concluída dois anos depois, em 1941.
A começar pela casa, parece que ali o tempo parou. Sem tirar nem pôr, ela está quase do mesmo jeito que foi construída, apenas exibindo alguns sinais de velhice. No quintal, algumas árvores, como duas jabuticabeiras e uma mangueira, que viviam carregadas de frutos, também exibem sinais de cansaço e quase não produzem.
''São árvores com mais de 60 anos, foram plantadas pelo meu pai'', conta Omeletino, lembrando que João Antonio e Josephina Lourençon Benatto chegaram em Londrina em 1933, vindos de Ipauçu, interior de São Paulo. Menino ainda, Omeletino acompanhou não só a construção da casa, como também o crescimento das árvores frutíferas do quintal.
Araçá, pitanga, dois novos pés de jabuticaba, pêssego, romã e uma goiabeira australiana que ''dá uma goiaba que é um beleza'', são algumas das frutas existentes ali. Em seguida, ele aponta para um pé de banana nanica - ''nanicão'', como ele diz, e, do alto dos seus cerca de 1,70 metro de altura, sustenta: ''Teve uma bananeira que deu um cacho quase da minha altura, cada banana...!''
Aliás, ao lembrar do tamanho do cacho de bananas, Omeletino recordou de um episódio envolvendo o pai e os taxistas do ponto que havia do outro lado da rua. Na base da gozação, quando o vizinho chegava no ponto, ''os taxistas ficavam falando que na casa do velho Benatto tudo é grande, manga dá meio quilo; cana dá dois metros... E gozavam o meu pai, como que duvidando do tamanho das frutas do quintal da nossa casa''.
Para provar que não mentia, um dia João Benatto se vingou dos gozadores: ao ver uma manga bem grande, ele subiu no pé e pegou a bitela; em seguida, foi numa touceira de cana caiana que tinha no fundo do quintal, arrancou uma bem grande, pôs no chão e mediu. Aí ele pegou a manga, a cana e o metro e saiu dizendo: ''Agora eu vou calar a boca deles!''
O filho conta que o pai saiu pisando duro, entrou na quitanda que tinha ao lado do ponto de táxi, e falou bem alto para o dono: ''Lauro, pesa essa manga aí pra mim: viu, deu 1 quilo e cem gramas! Agora mede esta cana: olha só, três metros e meio!''. Aí, ele olhou triunfante para os taxistas e falou bem alto: ''Tão pensando o quê, manga lá em casa dá é bonita mesmo e cana, não é dois metros não, é três metros e meio!''
Numa pausa da conversa, o irmão Ousvispertino entra na conversa para lembrar da mãe chupando jabuticabas de caldeirão. ''A gente pegava nos pés, lavava, punha pra gelar, era uma delícia, ficava eu de um lado, a mãe do outro e dá-lhe jabuticaba!''.
O pé de mexerica está carregado e as frutas começando a madurar. Olhando para a velha mexeriqueira, Omeletino conta que ela só voltou a produzir depois da ''surra'' que levou: ''Você pega um ferro ou um facão e surra o tronco dele bem surrado, fere mesmo; ele solta uma seiva ácida e aí volta a produzir. Este pé de mexerica é uma prova disso, não produzia mais e esta já é a segunda carga que dá''.
Figo, mamão, cereja, tamarindo, abacate, um pé de caqui vermelho de frutos, mais dois pés de goiaba, fruta do conde, além de uma parreira de uva niágara, com mais de 40 anos, ''que deu uma carguinha boa este ano'', completam o pomar. Olhando para o velho parreiral, Omeletino lembra novamente do pai: ''Ele fazia vinagre com folhas de uva, água e açúcar, um excelente vinagre, fazia uma tina de 110 litros''.
Omeletino revela ainda que as telhas e os tijolos da casa foram feitos pelo pai numa olaria em Jataizinho. E, olhando para o alpendre da velha moradia, uma das residências mais antigas de Londrina e das poucas a manter a mesma fachada, ele sonha com um abatimento, nunca vindo, do salgado IPTU.
Aos que possam estranhar tal pedido, ele lembra que seu pai comprou a data em 1939, época em que a rua se chamava Minas Gerais, era de terra, e Londrina não passava de um pequeno lugarejo encravado no sertão paranaense. E para os que insistem em comprar o terreno, Omeletino garante: ''Vamos segurar enquanto der; eu gosto muito desta casa e não penso em sair daqui''.

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