Uma casa que dona Divina não tinha sonhado: a ponte
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sábado, 08 de fevereiro de 1997
Lúcio Horta 
Josoé de CarvalhoAmarga mudançaDivina Moura e seu lar precário: Nunca vivemos assim, foi uma bobeira que deu vir para LondrinaMorar debaixo da ponte não era exatamente o que dona Divina Senna de Oliveira Moura, 37 anos, tinha sonhado para a família. Mas, por enquanto, o local é o melhor que ela conseguiu para proteger os filhos da chuva e do sereno. Ela, o marido, dois filhos mais um casal de amigos, estão há dois meses hospedados debaixo da ponte da avenida Winston Churchill, sobre o rio Quati (zona norte). Empacamos aqui porque não temos condições de ir para outro lugar. Mas nunca vivemos assim, foi uma bobeira que deu de vir para Londrina, lamenta.
A família de dona Divina é de Boituva, interior de São Paulo. Ela conta que chegou ao Paraná de caminhão, iludida com a colheita de algodão em Goioerê. Só que ganhamos pouco e agora não temos condições de ir embora. E eu não quero ficar aqui não. Lá eu tenho o resto da minha família e tem também muito mais serviço.
Dona Divina explica que vem tentando melhorar um pouco o aspecto do local, para não parecer tão precário. Por isso, foi recolhendo objetos de uso doméstico no lixo - talheres, panelas, canecos -, improvisou uma cama com tarimba, para não dormir no chão, e um fogão de lenha. Além disso, providenciou uma pequena cerca de madeira na divisa com o rio e cobriu partes da frente e do fundo da ponte com plástico. O problema é quando chove. O rio enche e fica um cheiro horrível. Sem contar o barulho dos caminhões que passam na ponte.
Dona Divina consegue água numa mina próxima ao rio, que ela usa também para lavar a roupa. As necessidades fisiológicas são feitas do outro lado da rua, num matagal, para não produzir mau cheiro nem gerar doenças. Mas a maior preocupação agora é com a saúde do filho caçula, Rodrigo Moura, de quatro anos de idade: o menino está com febre e diarréia. Fui a pé daqui até o Hospital Universitário para levar o Rodrigo. Lá eles deram remédio e parece que ele já está melhorando, diz.
Enquanto isso, o marido recolhe papel na rua para tentar juntar dinheiro e voltar para o interior paulista. Se demorar muito, ela diz, pretende ir até à Prefeitura pedir ajuda. O que não dá é a gente botar o saco nas costas e ir a pé para o asfalto.
A secretaria de Ação Social de Londrina informou que já tem conhecimento da situação da família de dona Divina, inclusive com algumas visitas. Segundo a mesma fonte, se houver interesse da família em sair da Cidade, e for constatado que a origem alegada é verdadeira, a Prefeitura cede as passagens.


