Imagem ilustrativa da imagem Uma casa para guardar na memória
| Foto: Ricardo Chicarelli



Com a intenção de preservar a memória dos carpinteiros e escultores de madeira que ajudaram a construir Londrina, Helmut Janz, de 83 anos, vai doar uma maquete da estrutura de uma casa de madeira ao Museu Histórico de Londrina. A solenidade será hoje, às 10 horas, no museu.
A maquete é uma réplica de como eram erguidas as casas nas décadas de 1940 e 1950, quando as construções de alvenaria nem existiam na cidade. O projeto iniciou em outubro do ano passado. "Quero mostrar a estrutura. As crianças que nascem hoje não conhecem a estrutura de uma casa de madeira", comentou.
Ele herdou do pai o gosto pela carpintaria. Aos 14 anos, já ajudava seu Albert Janz a construir casas para os vizinhos. A família Janz chegou em Londrina em 1930 para prestar serviço à Companhia de Terras Norte do Paraná. Um ano antes, o patriarca esteve na região para comprar terras na região do Heimtal (zona norte).
Seu Helmut nasceu em 1933. "Londrina ainda nem era cidade. Fui registrado em Jataizinho", recordou o carpinteiro. Ele casou em 1961 com a enfermeira Martha Luiza e tiveram cinco filhos. Morou por várias décadas em um sítio na região do Rio Lindóia, um pouco adiante do Jardim Paraíso (zona norte).


Uma casa para guardar na memória
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Parou de trabalhar em 1996 quando a mulher adoeceu e sente saudade de uma Londrina bem diferente dos prédios de concreto. "Hoje, é mais bonito e mais moderno. Na nossa época era tudo no cavalo. Serrávamos as madeiras para fazer as casas, mas dá saudade. A vida era mais simples e mais segura. Até 1960 eu conhecia Londrina. De lá para cá estourou; muita casa popular e muita gente", resumiu.
Ele lembra que as ferramentas como serrote eram manuais. Os detalhes entalhados na madeira que enfeitavam os beirais das casas eram feito a mão. "Minha faculdade foram as ferramentas do carpinteiro. Com 14 anos já estava batendo martelo."

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| Foto: Ricardo Chicarelli



No primeiro ano de casado, morou em Campo Mourão (Noroeste). Foi trabalhar em uma fazenda de um médico de Rolândia. "Era um sertão, um mato só. Então, voltei para Londrina", recorda.
Nesta época, no começo dos anos 1960, trabalhou em uma empresa de transporte e no sítio, antes de abraçar de vez a profissão que aprendeu com o pai. "Quando o meu pai faleceu, o patrão dele me convidou para trabalhar. Daí fiquei pendurando portas nestes prédios da cidade", contou. Ele lembra que havia muito serviço, mas como havia muitos profissionais, os salários eram baixos.

ESTUDO
Seu Helmut conta que fez somente o ensino fundamental, mas isso não impediu que ele se aperfeiçoasse na profissão. "Tinha que me aperfeiçoar, os mestres de obras obrigavam a gente fazer o que não sabia, então tinha que aprender", conta ele, confessando que não se arrepende de ter abandonado a escola. "Isso aqui para mim é um orgulho (apontando para a maquete). O rico ou o pobre precisa de casa. Tenho orgulho do que eu e a minha turma fizemos."
Um dos grandes desafios que teve como carpinteiro foi a construção de uma casa num sítio da zona norte. "Só não fiz a fiação elétrica e a pintura. O resto tive que fazer tudo. Foi uma experiência bonita. Eu gostava de fazer isso. Esse ofício, pelo amor que a gente faz ele, acontece sozinho."
Conta que as casas no sítio eram feitas na intuição. "O dono dizia ‘quero uma casa assim’ e o pai levantava. Não tinha nada de desenho. Parece que a inteligência era diferente; o sujeito fazia tudo pela memória", observa.
Aos 83 anos, seu Helmut ainda faz pequenos trabalhos na sua oficina de carpintaria, onde guarda ferramentas que eram de seu pai. E revela que ainda sobe no telhado de casa quando precisa de um conserto.

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