Uma casa de fé onde habita a inclusão
A igreja Nossa Senhora do Silêncio em Londrina será a primeira em todo o meio eclesial do mundo a oferecer uma estrutura totalmente voltada para os surdos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 20 de março de 2019
A igreja Nossa Senhora do Silêncio em Londrina será a primeira em todo o meio eclesial do mundo a oferecer uma estrutura totalmente voltada para os surdos
Micaela Orikasa 

Se não fosse o reflexo da fachada em vidro, talvez a igreja Nossa Senhora do Silêncio passasse alheia aos olhos de quem transita pela zona leste de Londrina. Mas não é só a estrutura que chama a atenção para esse lugar, e sim o porquê dele ser erguido. Atrás da fragilidade dos vidros, há uma estrutura de concreto rica em detalhes para receber todos os devotos da chamada "Mãe dos surdos" . Essa será a primeira igreja no mundo a ser projetada e pensada naqueles que têm alguma deficiência auditiva.
A ideia do projeto surgiu em 2012 e, desde então, cada metro quadrado vem sendo construído com doações da sociedade. A expectativa é que a casa da Mãe do Silêncio fique pronta em 2020. "Esperamos atrair fiéis de todas as localidades e fazer com que a Língua Brasileira de Sinais (Libras) possa ser cada vez mais valorizada, inclusive no meio eclesial", diz o padre Heriberto Mossato, responsável pela obra.
Ele destaca que a intenção não é promover uma participação passiva do surdo, mas seu protagonismo em toda a dimensão litúrgica na igreja, seja na leitura ou na interpretação de um canto, mesmo que se use um intérprete. "Criamos esse espaço para que os surdos vençam a ideia que, muitas vezes, está impregnada na sociedade e até neles próprios, de que não são capazes de fazer, de que precisam sempre de alguém como protagonista enquanto exercem um papel passivo", pontua.
Na vida do seminarista Matheus Henrique Siqueira Salgado, 24, esta história está prestes a mudar. Ele mora no seminário da Pequena Missão para Surdos e destaca que a obra da igreja traz a oportunidade de os surdos viverem a espiritualidade, de se confessarem e participarem verdadeiramente das celebrações. "É magnífico e fundamental para acolher toda a comunidade", diz
Salgado nasceu surdo e agora faz uso de aparelho. Ele é de Brasília e veio para Londrina em 2017, onde concluirá em breve o curso de filosofia. A própria experiência lhe permite dizer que os surdos ainda têm muitas barreiras para viver em sociedade, inclusive no campo religioso. "Já teve padre que me disse que não era possível eu me tornar um (padre) por ser surdo, mas Deus não chama pelo ouvido, e sim, pelo coração. E o meu chamado aconteceu ainda na infância", ressalta.
NOVOS CAPÍTULOS
Com toda estrutura acessível e missas 100% interativas, a igreja Nossa Senhora do Silêncio poderá ser em breve consagrada um santuário para contar novas histórias e preservar as que já foram escritas.
Sua trajetória começou com a vinda da Pequena Missão para Surdos, uma congregação religiosa dos padres gualandianos que surgiu na Itália em 1849, para ajudar na acolhida e educação dos surdos. Em meados dos anos 1970, os olhares da irmãs da Pequena Missão se voltaram para Londrina pelo notável trabalho do Iles (Instituto Londrinense de Educação de Surdos), um das primeiras e mais importantes escolas do País, e que funciona desde 1959. A igreja fica ao lado do instituto.
"As missas eram celebradas pelo padre Salvador em uma garagem improvisada aqui mesmo, com a participação de mais ou menos uns 40 surdos", lembra Helaine Cristina Dorthe Rampazzo Alves, 58. Ela foi aluna do Iles, onde conheceu as freiras da Pequena Missão. Hoje, é professora de libras no instituto e mantém viva sua devoção em Nossa Senhora do Silêncio.
Alves revela que a vinda do padre Salvador Stragapede, de Roma (Itália), lhe abriu novos caminhos, especialmente na espiritualidade, pois ele celebrava as missas em libras ao mesmo tempo em que ela estava aprendendo a se comunicar. "Eu vivia em um mundo de silêncio, inclusive dentro da minha própria família. Eu ia às missas com meus pais e não entendia absolutamente nada. Via Jesus na cruz e imaginava algo cruel, mas sem sentido", comenta ela, que perdeu a audição ainda bebê.
A devoção por Nossa Senhora do Silêncio é um ponto em comum da professora com o aluno João Vitor Guttuzzo, 16, que também perdeu a audição ainda bebê e espera com ansiedade o término das obras da igreja. Ele não só frequenta o local, como também ajuda nas missas. "É uma felicidade porque sinto que no futuro todos os surdos poderão participar tendo uma experiência ainda melhor no catolicismo. Deus abençoou a fundação dessa igreja", diz o jovem. Apesar de a obra não estar concluída, as missas acontecem normalmente. A principal ocorre aos sábados, às 19h30 e aos domingos, às 10h.
Alves destaca ainda que a grande expectativa é vivenciar as canções através das plataformas vibratórias que serão instaladas no chão para que o público possa sentir as ondas sonoras. "Será uma grande emoção porque nas outras igrejas a gente fica sem saber nada, não há nem intérprete. As pessoas não sabem como é a vida dos surdos. Existem muitas barreiras", completa.
MUITAS MÃOS
São muitas mãos envolvidas na construção da Igreja Nossa Senhora do Silêncio, em Londrina. Uma delas é do arquiteto londrinense Luiggi Guazzelli, que tem dedicado muito tempo para pensar em cada detalhe da obra, totalizada em 480 metros quadrados. Ele é voluntário nessa "missão". "Já completamos 80% da obra. Estamos agora na fase de acabamento, instalações elétricas e tratamento acústico", diz. Esta é uma das etapas mais importantes da nova igreja, como explica o arquiteto, pois o foco é melhorar a vivência daqueles que têm deficiência auditiva.
"No chão, serão instalados tablados com alto-falantes embutidos para que o público possa sentir as vibrações da ondas sonoras nos pés. São ondas de baixa frequência, ou seja, com propagação os sons graves. Eles vão conseguir sentir essas vibrações nos pés", destaca.
As cadeiras perfiladas em sistema de auditório também têm uma explicação. A posição ajuda na visibilidade do intérprete que também terá um espaço especial no altar, pensando sempre na melhor experiência aos fiéis.
Sobre alguns detalhes, Guazzelli explica que o conceito em trabalhar o paradoxo do concreto com o vidro, isto é, elementos pesados e leves, não é só estético. "O vidro é a leveza, a porta de entrada, aquela que atrai para dentro. E o concreto, que é a massa bruta, simboliza a introspecção, o lado espiritual". Além disso, a fachada é uma forma de favorecer a iluminação natural.
A obra está prevista para ser inaugurada em 2020 e terá capacidade para cerca de 120 lugares. Estima-se que terá um custo total de R$ 800 mil. No momento, a igreja está em campanha para arrecadar recursos para terminar o forro que, segundo o arquiteto, precisa ter um desempenho acústico confortável e resistência ao fogo.
*A conversa com Alves e Guttuzzo foi intermediada pela professora de língua portuguesa do Iles, Rita de Cássia Gomes Matoso Borges.
SERVIÇO - A igreja realiza uma campanha para terminar o forro da casa da Mãe do Silêncio. Interessados em contribuir podem acessar o site www.nossasenhoradosilencio.com ou telefonar para (43) 3337-6625.


