Curitiba - Vítima de um crime que acometeu pelo menos 53 mil brasileiras apenas no ano passado, conforme dados da Secretaria de Políticas para as Mulheres, da Presidência da República, a caminhoneira Cássia Claro, de 40 anos, tem transformado seu drama pessoal em combustível para conscientizar milhares de pessoas ao redor do País. Com o apoio da família, ela deixou para trás um relacionamento abusivo, permeado por agressões físicas e psicológicas, e se tornou uma das protagonistas de uma campanha cujo objetivo é prevenir e combater a violência doméstica.
"Ele (ex-companheiro) tinha o pavio curto. Não bebia nem nada, mas tinha um lado agressivo; estourava fácil, por qualquer coisa, na maioria das vezes por ciúme ou desconfiança. Hoje não tenho raiva. Foi uma experiência. Posso encontrar com pessoas na mesma situação e incentivá-las a fazer um tratamento ou a se separar. Nunca a ficar paradas onde estão, senão, uma hora chega o pior, que é a morte; e geralmente é o homem que mata a mulher", afirma a paulista, mãe de um menino de 12 anos.
A ação desenvolvida por Cássia faz parte da Caravana Siga Bem, que depois de percorrer cinco cidades paranaenses, no início de junho, partiu em direção ao Rio Grande do Sul e Santa Catarina – paralelamente, outro comboio seguiu para Tocantis e Maranhão. A ideia é visitar, nos próximos dez meses, 110 municípios de 23 Estados mais o Distrito Federal, totalizando 32 mil quilômetros de rodovias. Em cada parada, são oferecidas atividades como atendimento de saúde, corte de cabelo, massagem, palestras, shows de música e peças de teatro.
No espetáculo "O Cassino do Cupido", dirigido por Tito Teijido, a motorista é uma das atrizes que, de forma bem-humorada, aborda o tema da violência contra a mulher, com foco na Lei Maria da Penha. "A Teresinha (personagem principal) não consegue arrumar um namorado e vai a um programa de televisão (inspirado no Chacrinha). Lá, encontra dois caras. Um é lindo, só que é bruto, machista. Não quer que os dois trabalhem e sigam juntos na mesma estrada. E o outro é mais carinhoso, apesar de não saber falar direito, ser meio caipira", adianta.
Ao final, o galã resolve partir para a agressão. Os atores então se apressam em interagir com o público, falando sobre o problema e apresentando os canais de denúncia – Disque 100 (de direitos humanos, incluindo violência sexual contra crianças e adolescentes) e Ligue 180 (para relatar casos de agressão a mulheres). Ambos os serviços são gratuitos, funcionam 24 horas por dia e preservam o anonimato.

UNIVERSO MACHISTA
Ex-costureira, a caminhoneira começou a dirigir carretas há quatro anos, primeiro como motorista de testes, em busca de realização profissional. Na época, rodava de 400 a 600 quilômetros por dia, enfrentando o sono e as particularidades de um ambiente essencialmente masculino. "Eu estava passando e eles olhavam com estranhamento; falavam: ‘uma mulher?’. Não acreditavam. Mas aí vinham conversar. Pelo menos eu era bem recebida nos postos", lembra.
De acordo com a paulista, a mulher precisa se esforçar o dobro em relação aos homens para ocupar o mesmo espaço. "Atrelar uma carreta é pesado. Só que tem uma maneira que eu aprendi de empurrar com o peso do corpo. São algumas artimanhas. Tem também a questão da cólica, da dor de cabeça que a gente sente todo mês, aquele desconforto. Mas não pode perder a linha", ressalta.
Atualmente na Caravana, Cássia garante que se sente realizada no papel de multiplicadora. "Estou amando fazer. Alguns deles (caminhoneiros) falam: ‘ah, mas tem que inventar a ‘Lei João da Penha’ também. Aí eu peço para comparar quantas mulheres e quantos homens são agredidos.... Não tem nem como. E o homem pode procurar a delegacia normal. O próprio Código Penal ampara", orienta.

mockup