Na região ela já é conhecida por todos. Mascote do Edifício Vivaldi Boulervard, na Avenida Madre Leônia Milito (Zona Sul de Londrina), talvez a Nêga seja o único bichinho de estimação oficial de um condomínio. Sem raça definida, ela tem casa, ração, medicamentos e muito carinho dos moradores, que foram chegando depois dela. Em troca, Nêga também retribui a atenção dispensada: acompanha os moradores em seus passeios, não entra no hall do edifício, não estraga o jardim e faz suas necessidades somente fora do condomínio. Ela também dá exemplo de cidadania: só atravessa as ruas na faixa de pedestres.
A cachorra já era conhecida dos pedreiros, quando o edifício ainda estava em obras. Aos poucos foram chegando os moradores, que decidiram adotá-la e mantê-la no prédio. ''São 40 apartamentos, quase todos habitados e ninguém se incomoda com ela'', garante a arquiteta Fabiana Feijó, moradora do edifício há dois anos. Em reunião, organizaram uma ''vaquinha'' para garantir casa própria à Nêga. Todos participaram e não houve oposição. As tigelas foram doadas por outra moradora e todos contribuem com sua alimentação, inclusive os vizinhos: de ração a restos de alimentos.
Mas há um aviso: Nêga não come qualquer coisa. Só arroz e feijão nem pensar. Assim como a maioria dos humanos, ela gosta mesmo é de carne mas, no seu caso, pode ser com osso. ''Quem gosta dela cuida, não falta nada. E todos querem cuidar'', garante outra moradora Lara Fertonani. Quando a cadela fica doente é atendida por duas veterinárias com clínicas instaladas naquela região. O atendimento é gratuito, cortesia das profissionais, que brincam que a cadela é também beneficiária do Sistema Único de Saúde. Cobram apenas os medicamentos, geralmente, pagos pelos moradores. Os custos da cirurgia de castração, por exemplo, foram pagos pela advogada Lia Correia. Mas a recuperação do pós-operatório foi responsabilidade de todos.
Quando algum morador sai do edifício a pé, para caminhar à beira do Lago Igapó ou para fazer compras na região, Nêga faz questão de acompanhá-los. Sem coleira, ela caminha junto aos seus. Mas se durante o trajeto encontra um outro conhecido, sem a menor cerimônia, troca a companhia. Nunca atacou ninguém, mas não gosta de bicicletas e motos. Aliás, quando passa algum ''elemento mal-encarado'' na frente do edifício ela acompanha a pessoa de dentro do portão, inclusive, com latidos. E como todo cachorro que se preza, também faz suas caças. As presas são os ratos que se aventuram pelas tubulações do prédio.
Familiarizada com a região e com os moradores, Nêga conhece bem o caminho de casa. Durante as obras do edifício, os moradores contam que o construtor doou a cadela para uma outra pessoa. Nêga não se acostumou e, alguns dias depois, ela estava novamente no edifício. Sociável também com seus iguais, ela nunca brigou com os outros animais moradores dos apartamentos. A cadela, inclusive, tinha um amigo morador da região que, pontualmente às 23h15, chegava ''em sua casa''. Assim, os dois juntos saíam para uma balada canina, já que todos têm direito ao seu lazer. Do amigo ninguém tem mais notícia, mas os hábitos do passeio foram mantidos.
Quando ela quer sair do condomínio por algum motivo, pára em frente ao portão e aguarda até que os porteiros atendam seu pedido. Portão aberto, liberdade para o passeio. Ah! E engana-se quem pensa que ela volta suja ou com pulgas. Os moradores garantem que isso nunca aconteceu. Em tempos que em os animais são considerados ''personas non gratas'' em muitos condomínios, Nêga pode ser um bom exemplo de tolerância e amor aos bichos. E os cuidados dispensados à ela são, cuidadosamente, retribuídos.

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