Uma botica para relembrar
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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Micaela Orikasa<br>Reportagem Local 
Londrina - "Prometo cumprir com zêlo, escrúpulo e humanidade todos os deveres inerentes às atividades farmacêuticas previstas nos têrmos da lei nº 3.820, de 11 de novembro de 1960". O texto, acima da fotografia antiga, está registrado na Carteira de Identidade Profissional, assinado por Carlos Canuto Gouveia, de 77 anos.
Apesar do tempo, o documento foi preservado com o mesmo carinho com que Carlos e seus irmãos mantiveram os balcões em madeira, a máquina de registro, a balança de peso e o chão vermelho, que se destaca pelo brilho do piso original.
Entrar na Farmácia Viana, fundada no início da década de 40 na Avenida Duque de Caxias, área central de Londrina é como voltar ao tempo. Mas não se engane. Tudo é revelado com muita organização e limpeza, atributos que seo Carlos faz questão de ressaltar.
Criados pela mãe cabeleireira desde a morte do pai, os irmãos Carlos, Ciro, Manoel (falecido) e Oswaldo lembram quando deixaram a pequena Quatá (SP) em 1947, rumo a Cambé (Região Metropolitana de Londrina).
"Naquele tempo, farmácia era um ótimo negócio. As pessoas não iam tanto ao médico, porque o farmacêutico resolvia muitos problemas de saúde. Minha mãe comprou esse ponto em muitas parcelas e deu para os filhos tocarem. Meu irmão Oswaldo acabou se mudando para Goioerê e eu e meus outros dois irmãos assumimos", diz, lembrando do ano de 1959.
O nome "Viana" é desconhecido até para Carlos, pois o negócio já teve outros quatro proprietários anteriormente. Imagine só a longa vida que a farmácia tem. Carlos conta que quando assumiu o local, a Avenida Duque de Caxias ainda se chamava Rua Marechal Deodoro. O chão era de pura terra vermelha e entre secos e molhados e padarias, se destacava por ser o único comércio de medicamentos.
"Vinham clientes de Assaí, Uraí, Bela Vista do Paraíso, Alvorada do Sul e Sertanópolis porque a gente atendia o Sindicato dos Ensacadores, além de grandes empresas como a Garcia e a Transparaná. Hoje, o pessoal compra muito da China", conta, em tom de brincadeira.
Com a morte de Manoel, em 2007, Carlos e Ciro ficaram no comando da farmácia, mas no ano passado Ciro resolveu se aposentar e Carlos seguiu com o negócio sozinho. "Conto com a ajuda da meu neto, mas já estou com idade para parar. Me sinto cansado e passei por duas cirurgias cardíacas. Vou anunciar para ver se vendo. Ainda não sei o que fazer com essa instalação", revela ele, que ainda não sabe também o que irá fazer com o tempo ocioso.
"As pessoas sentem, pois temos clientes há muitos e muitos anos, mas não tem jeito. A gente acabou ficando distante e as grandes farmácias do centro acabaram com nós", desabafa Ciro, enquanto arrumava a bobina da máquina registradora adquirida em 1953.
Tradição
"Tudo que está na farmácia é antigo. Chegamos a fazer uma reforma, mas foi só para ampliar. O piso continua sendo original, a balança é de 45 anos atrás. Aqui, tudo é velho", diz Carlos, aos risos, ressaltando que eles quiseram manter tudo do jeito que sempre foi. "É uma coisa nossa mesmo, entende?", indaga.
Nos armários de madeira conservados pelo verniz desde 1975, também dão um charme especial ao local. Estar lá é como voltar ao tempo, como se estivesse em uma botica. Nas prateleiras, já com pouquíssimos produtos, é possível encontrar frascos de produtos muito vendidos décadas atrás. "Saía muito colírio Moura Brasil, Eparema, Leite de Magnésia, Biotônico Fontoura, Elixir 914, Licor de Cacau e Óleo de Rícino. A gente mantém porque se uma pessoa pedir, tem", explica.
Mas com data marcada para fechar as portas - sexta-feira, dia 28 um sentimento de tristeza toma conta do ambiente, ao mesmo tempo em que fica a sensação de dever cumprido. "Tudo que consegui na vida foi atrás desse balcão", declara Ciro, enquanto Carlos confessa que daquela época não sobrou nenhum outro comerciante naquele quarteirão.
E com o coração apertado, mas o corpo cansado, Carlos e Ciro vão conversando nesses últimos dias sobre o que fazer com os produtos e móveis, que são mais do que antiguidades. São heranças de um tempo que progrediu rapidamente, mas não perdeu seu valor. A farmácia Viana ficará não só na memória dos Canuto Gouveia, mas de muitos londrinenses que "alimentaram" os armários em madeira e "lustraram" por anos o piso vermelho da farmácia. "Bons tempos. Não é para se ter saudades?", desabafa Carlos, agora em tom de nostalgia.


