Em uma das ruas centrais de Londrina uma casa simples abriga uma mulher de pouco estudo e muita fé, que dedica boa parte de sua vida a ajudar os outros com o poder da oração. Dona Efigênia Costa Mauro, 78 anos, é uma benzedeira, destas que quase não existem mais, que as mães levam os bebês para desfazer quebrantos, pessoas roubadas vão atrás de responsos, casais em conflito vão em busca de harmonia. Há quase 50 anos ela mantém o pequeno altar em um cômodo nos fundos da residência, que também faz as vezes de despensa e cozinha.
''Aqui não sou eu que falo, é Deus'', diz a simpática mineira de Rio Pomba (município centenário próximo a Juiz de Fora). O dom da ''benzeção'', ela acredita, herdou da mãe, que lhe passou a incumbência de ajudar o próximo no momento em que se despedia da vida. ''Ela perguntou se eu queria e eu aceitei. Só não quis mexer com umas imagens de índio que ela tinha.''
No cantinho onde mantém uma vela permanentemente acesa para Santo Antonio não tem espaço para maldades e pensamentos negativos. ''Quando entra alguém aqui pedindo o mal para alguém, eu converso e explico que isso não leva a nada. Tudo o que a gente planta um dia colhe. Não faço nada para derrubar ninguém'', atesta. Aos conhecidos e desconhecidos que a procuram diariamente ela costuma expressar a verdade absoluta: ''Se você tem fé, você tem tudo.''
No altar da benzedeira repousam várias folhas de caderno com anotações. São os nomes das pessoas que rogam por graças. Todas as terças-feiras (dia consagrado a Santo Antonio) e quintas-feiras (dia do Espírito Santo) as folhas são queimadas em um cuidadoso ritual. Nestes dias dona Efigênia recebe visitantes o tempo todo em seu pequeno templo - ela revela que houve uma época que até padres recorriam a suas orações. Embora nunca tenha cobrado pelos atendimentos, é comum receber cestas de alimentos e outros donativos, que entrega a entidades assistenciais.
Uma das preocupações da 'curadeira' é com o futuro de suas imagens, trezenas (série de orações realizadas durante um período de 13 dias) e outras rezas, que saem de sua boca com a mesma facilidade com que conversa com quem mal conhece. ''Não tenho ninguém para ficar no meu lugar. No dia da minha despedida não sei como vai ser. Mas eu ensino a trezena de Santo Antonio para quem quiser'', afirma a benzedeira.
Dona Efigênia revela que nem sempre a vida lhe foi tranquila. ''Levei meus irmãos para morar comigo quando casei. Sofri muito, mas sou uma vitoriosa. Tudo nesta vida tem um caminho'', ensina, para em seguida lembrar que os momentos difíceis quase sempre vêm para nos tornar mais fortes e nos mostrar como agir. ''Quanto mais a gente faz o bem, mais força a gente tem'', conclui a mineira que há 56 anos desembarcou no Paraná.

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