Um bolo de 100 metros, um para cada ano vivido, vai tomar conta do centro de Arapongas (37 km a oeste de Londrina) neste final de semana, para comemorar o centenário do pioneiro Clemente Soares. Esse baiano de pequena estatura e grande coragem é um pioneiro especial, o primeiro da cidade.
Natural de Urandi, Seu Clemente chegou em Arapongas em 1928 para desbravar as terras da Fazenda do Bule, na época uma floresta com quilômetros de mata e nenhuma viva alma por perto. ''Minha vida dava um romance, cada coisa que eu passei aqui que ninguém acredita'', afirma.
Na memória intrincada de Seu Clemente, as histórias vem e vão e ele não se faz de rogado para contar. Aliás, até gosta. As mais antigas vem com uma riqueza de detalhes impressionante. Ele lembra, por exemplo, do nome e das feições de um cozinheiro espanhol, Paco, que trabalhou por pouco tempo na fazenda lá pelos idos do início da década de 30 e quetentou envenená-lo contra o patrão. Gosta de contar também a história de um duelo na floresta com um sujeito que, diziam, queria matá-lo. ''Por sorte ele se acovardou e não precisei matar ninguém'', afirma.
Seu Clemente casou em 1933, com Clementina, na época com apenas 13 anos. A esposa morreu há pouco mais de um ano e meio. Juntos tiveram cinco filhos, 11 netos, 12 bisnetos e três tataranetos. Com 50 alqueires de terra como pagamento pelos serviços prestados à família Bule, Seu Clemente se tornou um grande produtor de café e adquiriu outras propriedades.
O pioneiro centenário tem uma disposição de fazer inveja. Na rotina de Seu Clemente, leitura diária de jornais ele não precisa do auxílio de óculos , visitas ao barbeiro e uma dose diária de cachaça. ''Quando está calor ele também toma uma cervejinha'', entrega a filha Maria Aparecida Soares Nunes, 62 anos. Se não fosse a surdez e o inseparável relógio de bolso, ninguém diria que Seu Clemente tem 100 anos.
O relógio, aliás, merece um capítulo a parte. Companheiro de Seu Clemente há anos, o objeto tem outros usos. ''Ele me conta tudo o que eu quero saber'', brinca o pioneiro que faz perguntas e interpreta respostas de acordo com o movimento do relógio. Uma tentativa de assalto quase levou o companheiro embora. ''Um massa de homem puxou, puxou pelo cordão mas o relógio não saiu do bolso, foi Deus'', relembra.
Questionado sobre a idade, ele diz que está ''só um pouquinho velho'' e morrer tão logo não vai porque ainda não quer. Seu Clemente credita a longevidade à caridade que fez durante toda a vida. ''Antigamente tanta gente me dava 'Deus que ajude' que deve ser isso. Nunca deixei de fazer caridade nem de dar de comer para quem estava com fome'', argumenta. De uma época em que os legisladores não recebiam salário, Seu Clemente sempre doou para instituições os rendimentos obtidos em seus três mandatos como vereador.
Talvez por isso não faltou patrocinadores para custear o bolo de cem metros com as cores da bandeira do município, azul e amarelo, que será distribuído no sábado, quando Seu Clemente completará os 100 anos. ''Nem os vizinhos reclamaram de ter a rua trancada'', afirma a historiadora Naici Vasconcelos, que já editou um livro com depoimentos de pioneiros e organiza a festa.

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