Os alunos do Colégio Estadual Profº Carlos Augusto Mungo Genez, no Conjunto Jamile Dequech (Zona Sul de Londrina) receberam ontem pela manhã uma visita especial. Eles puderam conhecer e ouvir as curiosidades da Segunda Guerra Mundial através de José Soares Neto, mais conhecido como ''José do Lenço'', devido ao acessório usado a vida toda no pescoço.
Aos 90 anos, seo José é um dos quatro combatentes vivos que moram hoje em Londrina. Ele integrou o 6º Regimento de Caçapava enviado a Nápoles, na Itália, em 1944, para lutar contra os alemães.
''Começamos a trabalhar esse assunto neste bimestre e apesar de usarmos bons livros e fotografias, achamos que o relato de um ex-soldado seria um complemento muito importante. Fizemos questão de trazê-lo à escola'', diz o professor de História, Rogério Orlando de Oliveira, que tem trabalhado o tema com o apoio do diretor auxiliar, Sandro Severino. ''Esta é a segunda vez que contamos com a participação de seo José. Acho que, além do amor à pátria, ele dá o exemplo de honradez. Ele é uma história viva e um verdadeiro cidadão brasileiro'', afirma o diretor.
Com histórias que renderiam um livro, seo José se sentia lisonjeado a cada pergunta dos alunos. ''Fico contente porque acho que estou passando algo para esses estudantes de uma forma bem diferente. Eles me fazem perguntas curiosas, como por exemplo, como a gente tomava banho e o que nós comíamos'', conta.
Para Gabriela da Silva Bueno, aluna do 1º ano do Ensino Médio, conhecer um ex-soldado é um privilégio. ''Dá muito orgulho escutá-lo. Para mim, essa experiência está sendo inacreditável porque eu nunca imaginava conhecer um homem que lutou na guerra. É muito legal'', diz.
Já o estudante Cleberson Dutra dos Santos, da 8 série, a presença de seo José foi uma oportunidade para esclarecer dúvidas sobre a carreira militar. ''Eu queria saber o que ele tinha para falar, pois estamos próximos ao alistamento. Ele nos demonstrou a importância de defender nossa país e acrescentou muito ao conteúdo que estamos estudando. É muito emocionante'', revela.
Orgulho
A cada lembrança revivida através das respostas dadas aos alunos, José do Lenço expressava um sentimento de emoção, mas principalmente orgulho. Ao voltar ao passado, ele conta como foi receber a notícia de ir para a guerra. ''Eu era novo. Tinha 23 anos e tinha sido preso algumas vezes por desobediência civil. Naquele tempo, o Exército era muito severo e só o fato de você não fazer continência toda vez que via um oficial era motivo para ficar preso por 10 dias. Quando eles precisaram enviar cinco mil homens para o combate, eles foram escolhendo os que haviam tido mais punição'', recorda.
No campo de batalha, ele diz que era movido pelo amor à pátria. O objetivo dele era avançar cada vez mais para que os alemães não tomassem a Itália. Todo o esforço foi válido já que o Brasil saiu vitorioso em todas as frentes de combate.
''O momento mais marcante foi quando eu e mais dois amigos estávamos em uma região da Itália que estava sendo bombardeada. Nós nos escondemos atrás de um fardo de feno e um morteiro caiu bem no meio dele. Nossa sorte foi que algo aconteceu e ele não explodiu. Se tivesse detonado, nós ficaríamos despedaçados'', revela. Após esse relato, um desabafo: ''sou um privilegiado por Deus. Depois de tudo o que passei, estou vivo''.
Durante um ano, tempo que passou em guerra, seo José perdeu cerca de 600 soldados amigos e viu mais de três mil ficarem feridos. Com o fim da guerra, ele - que é nascido em Assis (SP) - comprou um caminhão e veio para Londrina trabalhar no transporte de café. Nunca mais saiu desta terra.
Hoje, com duas filhas e duas netas, seo José comemora a boa saúde. Logo ao levantar, faz 100 flexões por dia e ainda joga bola duas vezes por semana. Ele é o goleiro do time. ''Eu não consigo ficar parado, sem fazer nada'', justifica.

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