Uma aula de astronomia indígena
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 16 de abril de 2013
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 
Em um teatro o espetáculo começa quando as cortinas se abrem, mas em um planetário isso acontece quando elas se fecham, para impedir a entrada da luz e transformar o dia em uma noite estrelada. Na tarde de ontem o Planetário de Londrina recebeu a visita do professor Germano Afonso, que trabalha em Manaus e é a única autoridade brasileira em astronomia indígena. A plateia foi composta por estudantes da Escola Estadual Indígena Cacique Koféj, de São Jerônimo da Serra (Norte Pioneiro). Assim que começou a apresentação a iluminação do ambiente foi sumindo e os estudantes, que gostam tanto de conversar, ficaram em silêncio para escutar o professor.
Com um laser, Afonso foi apontando para as constelações e mostrando onde elas surgiam ao anoitecer e sumiam quando o dia aparecia. Para tornar mais fácil a identificação das formações estelares, ele usou algumas das constelações mais conhecidas aqui no Brasil: o Cruzeiro do Sul, as Três Marias e a de Escorpião. Partindo delas ele foi introduzindo as constelações conforme os conhecimentos indígenas, como da Ema, do Homem Velho, da Anta do Norte e do Veado do Campo.
Afonso explicou que um dos instrumentos mais rudimentares de astronomia utilizado pelos índios é o Kuaray Raanga, que consiste em um graveto espetado no chão para determinar o horário, conforme a sombra projetada. O professor contou que durante a construção da usina hidrelétrica de Segredo, no município de Mangueirinha (Sudoeste), foi descoberta uma pedra com inscrições rupestres e que tinha essa função. A pedra ficou submersa depois da implantação da usina.
Muitos indígenas, segundo o professor, utilizam até hoje o conhecimento de astronomia para determinar a época de plantio e de pesca e quando realizariam rituais. Por meio dessas observações celestes também podiam saber qual o período de chuva ou de estiagem.
Resgate da cultura
A estudante Ione da Silva Cândido, de 15 anos, já tinha assistido a uma sessão no planetário, mas de acordo com os conhecimentos da astronomia ocidental. Ela gostou muito de conhecer os desenhos das constelações conforme a tradição indígena e disse que foi uma forma de resgatar um pouco de sua cultura. "Esse conhecimento só os mais velhos possuíam", declarou.
Para a colega Bruna Cândido, de 13, a palestra foi interessante. "Gostei muito, eu não sabia de nenhuma dessas coisas que nos repassaram", declarou. Ao final da sessão cada um dos estudantes recebeu a impressão de um mapa celeste para poder treinar a observação das constelações e também para fixar o conhecimento que adquiriram.
Também participaram da sessão no Planetário os estudantes do Colégio Estadual Vicente Rijo, de Londrina.
Afonso nasceu em Ponta Porã (MS) e durante muitos anos foi professor da Universidade Federal do Paraná. "Cerca de 90% de meu conhecimento eu adquiri aqui no Paraná e vi que tinha similaridades com índios de outras regiões", explicou o professor, que hoje trabalha com tribos de Manaus. Durante a sessão ele reencontrou um de seus ex-alunos, o cacique João Cândido, da Terra Indígena de São Jerônimo da Serra. O cacique destacou que muito do que ele explicou se perdeu com o passar das gerações, mas os índios remanescentes estão empenhados em resgatar esse conhecimento.
O professor Gilberto Carlos Sanzovo, coordenador do Planetário de Londrina e do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação a Docência (Pibid) de Física da UEL, explicou que o evento foi realizado para comemorar a Semana do Índio. E por meio dele os alunos tiveram a chance de conhecer a astronomia praticada pelos primeiros habitantes da região. Ele é o responsável pelo curso de astronomia que é realizado nas escolas públicas há dois anos. As sessões no Planetário nesta semana encerram esse curso. Hoje à tarde participam do evento os alunos dos colégios estaduais Marcelino Champagnat e Maria José Aguilera (de Londrina), além da turma da Escola Estadual Indígena Benedito Rokag, de Tamarana (Região Metropolitana de Londrina).


