O número 258 da rua Rebouças, no jardim Vitória (Zona Oeste), parece um lugar que parou no tempo, mais exatamente na década de 70. O endereço é do Bar do Jorge, mas bem que podia se chamar ''Venda do Jorge'', pois os potes de doce no balcão e as miudezas espalhadas pelo estabelecimento lembram bem as vendinhas que eram comuns nos bairros de Londrina há alguns anos. Para completar a nostalgia, o bar é conjugado com uma sapataria onde um senhor trabalha, há 37 anos, para deixar os calçados dos fregueses ''novinhos em folha''.
Porém, o que mais chama a atenção por ali é o jogo escolhido pelos frequentadores para passar o tempo. Eles garantem que o Bar do Jorge é onde mais se joga xadrez na cidade. É isso mesmo, o xadrez corre solto nas duas mesas especialmente armadas para isso, em meio a cervejas, conversas e até palpites dos ''sapos'' que ficam observando ou esperando a vez; a fama do local é tamanha que tem até fila para jogar.
Segundo o aposentado Gérson Ricci, 72 anos, o mais assíduo jogador de xadrez das redondezas, a moda começou por ali faz uns 15 anos, quando um francês que ninguém sabe o nome apareceu no bar com um tabuleiro embaixo do braço. Bastou acontecer a primeira partida e pronto, o jogo caiu no gosto da turma.
Hoje, eles são 40 jogadores, de várias idades. Ricci é um dos pioneiros, da primeira turma que movimenta peões, cavalos, damas e rainhas nas mesas do bar. De ótimo humor, ele conta que passa em torno de seis horas por dia jogando. Já tem praticamente uma agenda fixa e adversários definidos. ''Chego às 13h30 para jogar com o Walter, às 15h30 tem o Arlindo, às 1830 vem o...''.
Durante muito tempo, o seu maior adversário foi o sapateiro Enos Gajardoni, 67 anos. ''Às vezes eu o via sozinho por aqui, sem adversário para enfrentar. Aí deixava os sapatos de lado e jogava uma partidinha. Acho que jogamos mais de mil (partidas). Atualmente não faltam jogadores, por isso eu fico só observando. O jogo de xadrez neste lugar é o meu divertimento, ajuda a me distrair no serviço'', conta Gajardoni.
Há também quem fique só na torcida, como o desenhista Hélio Ragazzi, 51, o responsável pelo desenhos das mesas que abrigam os tabuleiros. Entuasiasta do jogo e membro do Clube do Xadrez de Londrina, ele já organizou até torneio no bar. Trinta e dois jogadores competiram. ''Aqui eu não jogo, só assisto. Fico satisfeito quando os vejo jogando'', comenta.
Enquanto a reportagem da FOLHA foi entrevistando, o pessoal continuou jogando. Sinônimo de concentração e de movimentos friamente calculados, no bar o xadrez parece rolar mais depressa. Como tem sempre o próximo, o pessoal não perde muito tempo. Uns relógios cronometram o tempo gasto por cada jogador, que tem cinco minutos para realizar cada movimento. Ao final de cada jogada, um tapa em um pino pára o relógio de quem acabou de jogar e destrava o do adversário. É tapa a todo instante.
E o que o dono do bar acha disso? ''É uma pena eu não poder jogar por que tenho que servir as mesas'', responde Jorge Matsuoka Hirotaka.

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