Um urubu chamado 'Negão'
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sábado, 30 de dezembro de 2006
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
A vizinhança agora que está se acostumando com a novidade, mas o urubu ''Negão'' já tem endereço fixo na Rua Rodésia, no Parque Ouro Verde (Zona Norte de Londrina), há pelo menos três meses. Ainda desengonçada pela falta de jeito com as grandes asas negras, a ave foi adotada ainda filhote pelo motorista José Marcos de Jesus Gonçalves, 38 anos, e acabou virando o ''xodó'' da família. E entre quem conhece tão excêntrico animal de estimação, ninguém acredita na fama de agourento do bicho.
A dona-de-casa Maria Lúcia Vieira, 40 anos, admite que ficou com receio quando o marido trouxe o filhotinho com o corpo ainda coberto por uma delicada penugem branca e avisou que a ave tinha chegado para ficar. Ele havia encontrado a pobrezinha no forro de uma casa abandonada e decidiu não esquecê-la à própria sorte. Como ninguém sabia ainda o sexo do bicho, a família decidiu apostar no ''óbvio'' e batizou o morador recém-chegado de ''Negão''. Logo, logo, a ave se acomodou no quintal, bem embaixo do forno - agora aposentado - de onde dona Maria tirava perfumadas fornadas de pão caseiro.
Desde bem cedo, segundo a dona-de-casa, ''Negão'' demonstrou ser carinhosa (a família jura que a ave é fêmea) e até hoje nunca atacou ninguém. ''Ela come na mão do meu marido e fica esperando ele fazer carinho no pescoço dela'', diz uma esposa meio enciumada. ''Brinco que ele dá mais atenção para esse bicho do que para gente aqui em casa'', completa às gargalhadas.
Mas, porçãozinha de carne moída vai, porçãozinha de carne moída vem e o bicho cresceu. Em suas primeiras aparições para a vizinhança, a ave demonstra que ganhou peso, que as penas enegreceram e que o porte tornou-se imponente. A envergadura, à primeira vista, chega a assustar. Desde o último sábado, ''Negão'' começou a testar as asas, ensaiando os primeiros sobrevôos pelas redondezas. Tudo muito desengonçado, sem jeito mesmo: do chão para o telhado, do telhado para o muro e, de novo, para o chão.
João Vitor, 6 anos, o caçula de dona Maria, no entanto, está lá sempre pronto para ajudar. O menino escala o muro, chama pelo nome, grita, oferece carne. Não demora, a ave se aproxima e retribui delicadamente o afeto recebido. E nem pense em propor para o garoto a troca do urubu por um cachorro, gato ou qualquer outro bicho mais convencional. ''De jeito nenhum. Eles iam machucar ela'', reclama por antecipação.
Muito bem resolvida com ''Negão'', a família só espera que a ave seja o presságio de um 2007 harmonioso e feliz para todos. ''Todo mundo fala que urubu traz azar, essas coisas, mas eu não acho. Vai começar mais um Ano Novo e só espero que ela traga sorte'', confessou dona Maria. A vizinhança também acha que a fama de portador de mal agouro não procede. ''Acho que isso não tem nada a ver. O azar quem proporciona é a própria pessoa'', sentencia o vizinho açougueiro, José Carlos da Silva, 39 anos.


