Um toque especial no preparo dos alimentos
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sexta-feira, 09 de junho de 2006
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Cerca de dez alunos, entre eles cegos e pessoas com deficiência parcial na vista, fizeram ontem a segunda aula do Curso de Culinária e Aproveitamento de Alimentos oferecido pela Associação dos Deficientes Visuais de Londrina e Região (Adevilon). Aprendizes como Idalete Rosa, 51, que não enxerga nada há mais de 20 anos, acabam dando lições a donos de visões perfeitas.
Alguns exemplos: muitos de nós não sabem diferenciar um pé de almeirão de uma folha de chicória. Ou, volta e meia, colocamos um ingrediente errado na comida por pura falta de atenção. São confusões que deficientes visuais evitam porque se acostumaram a sentir a textura e o cheiro dos alimentos, além de serem extremamente organizados.
''Eu quase nunca erro porque deixo os ingredientes todos separadinhos. Na dúvida, provo na ponta da língua'', diz Idalete. Na única vez em que se enganou, acabou criando uma receita nova: o bolo chocoranja. ''Ela pôs chocolate em pó no lugar de farinha. Pior que ficou gostoso!'', lembra a filha, que participa do curso junto com a mãe.
Familiares dos deficientes visuais e pessoas da comunidade têm sido convidados a fazer os cursos para aumentar a integração. Segundo a assistente social da Adevilon, Carmem Andreza dos Santos, a entidade completa uma década este ano e está buscando sistematizar a oferta de oficinas. ''A gente vai escolhendo os temas de acordo com a expectativa dos associados. Nosso principal objetivo é conhecer e trabalhar as potencialidades do deficiente'', explica. A Adevilon tem hoje 194 associados.
Na oficina de culinária, os alunos aprendem a preparar pratos saborosos aproveitando partes de alimentos que costumam ser descartados, como folhas de beterrabas e cascas de frutas. A maioria da turma é composta por donas-de-casa que já cozinham e buscam receitas novas. O único rapaz inscrito é Adauto Marcondes, 23, que além de limitações na vista, possui deficiência auditiva. Os colegas ajudam escrevendo as lições num quadro, em letras grandes. ''Estou aqui para me aprimorar. Quando estiver sozinho, não precisarei depender dos outros para fazer minha comida'', justifica.
Para a professora de culinária Ana Maria Ivale Menezes, 48, o curso foi uma chance de aprender, mais do que ensinar. ''As pessoas pensam que os deficientes não têm autonomia, mas têm sim. São muito organizados, têm noção de tempo. Só precisam de um auxílio'', aponta. Roselvira Pereira da Silva Lima, 46, que não tem problemas de visão e participa das aulas como membro da comunidade, também tira sua lição do convívio com os deficientes: ''Eles deixam as coisas sempre no mesmo lugar para achá-las facilmente. A gente também tem que ser assim. Se houver um apagão, ninguém deixa de comer''.
Serviço A Adevilon está com inscrições abertas para cursos de
informática (13 de junho - 9h às 11h e 14h às 16h) e pintura em tela (dias 19, 22, 26 e 29 de junho - 14h às 17h) para deficientes visuais. Para toda a comunidade estão abertas inscrições para o curso de macramé (10 de julho 14h às 17h). Mais informações na Rua Amapá, 16, Centro, fone (43) 3329-8143


