Um sonho de Natal é apenas um sonho
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sexta-feira, 28 de dezembro de 2001
Walter Ogama 
Londrina Aquele senhora, no meio da multidão, parecia assustada. A grande loja de departamentos, derramando consumidores até pelas estantes, era algo incomum para ela, uma pessoa modesta e não acostumada à agitação do centro da cidade. Quando muito, a mulher, de baixa estatura, peso acima do normal, cabelos amarrados feito um rabo, visitava uma vez por mês o supermercado mais próximo do bairro onde mora, na região leste de Londrina, para as compras mensais.
Arroz, feijão, farinha, óleo, sal, café e açúcar faziam parte da lista, sempre, sem por nem tirar. Mas naquela véspera de Natal a encomenda era outra. O primeiro emprego do filho mais velho havia rendido o 13º salário. Menino de corpo miúdo, apesar dos 17 anos de idade, ele conseguira um emprego, há oito meses, num depósito de material de construção. Ali fazia de tudo. Ajudava na carga e descarga, fazia entregas de miudezas, corria às agências bancárias.
Até que veio dezembro. E com o mês das festas, o décimo-terceiro. Então ele pediu para a mãe, a quem entregava tudo o que ganhava, um presente especial. O dinheiro extra daria para comprar um CD player, porque na casa do menino não tinha um aparelho de som de boa qualidade. Ela foi para a cidade, temendo assaltos e, devido ao medo, causava suspeitas, pela forma como segurava, com firmeza denunciadora, a boca da velha bolsa de courvin.
Já na loja, não sabia para onde ia, quem atendia, quando devia pagar. Sempre assustada, enxergava nas pessoas próximas alguém que pudesse ajudar. Mas não pedia socorro, tampouco tinha coragem de pedir informações. Foi quando sentiu o esbarrão e a ausência da bolsa, cuja alça fora rasgada com um puxão.
Dentro da bolsa foi embora o primeiro sonho do menino trabalhador de se presentear com o fruto do seu suor. Ficou, nas mãos suadas daquela senhora assustada, algo que nem ela, naquele momento, saberia dizer se era revolta, pânico, tristeza. E, no menino, que já havia tomado gosto pelo trabalho, uma certa dúvida: será que Papai Noel existe?


