Um século de lembranças
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de dezembro de 2011
Marcos Roman <br> Reportagem Local 
No ano em que Londrina estava sendo fundada dona Maria Adam Caldana chegou ao município. Prestes a completar seu 102º aniversário no próximo dia 3 de janeiro, a pioneira lembra fatos marcantes de sua história que tem como pano de fundo a trajetória da cidade onde reside desde 1934 e que é a terra natal de seus cinco filhos, 13 netos e 15 bisnetos.
Filha de eslovenos, dona Maria nasceu nos Estados Unidos em 1910. ''Meu pai trabalhava em minas de carvão e vivia se mudando de cidade. Logo nos meus primeiros anos de vida minha família resolveu voltar para a Eslovênia e quando eu tinha 13 anos ele decidiu se mudar para o Brasil para fugir da ameaça de guerra que rondava a Europa'', conta.
Em uma viagem de navio que durou 28 dias, dona Maria chegou ao Brasil acompanhada dos pais e de nove irmãs. ''Meu pai comprou terras na cidade de Lins, interior de São Paulo. Depois disso moramos em Birigui, onde conheci meu esposo e, recém-casados, viemos para Londrina porque meu sogro havia comprado terras para cultivar café aqui'', relata a pioneira.
Dona Maria diz que quando chegou em Londrina era tudo mato e barro. ''Morávamos na Rua Pará e cultivávamos café em uma área rural que ficava próximo à Catedral, que naquela época era apenas uma capelinha de madeira. Eu participava quase que diariamente das missas. Era tanto barro que perdemos muitos sapatos atolados no caminho entre a casa, o trabalho e a igreja'', afirma.
A religiosidade e a vontade de trabalhar são hábitos que dona Maria diz levar consigo desde a adolescência. ''Sempre fui muito caseira e só saia de casa para ir à missa. Apesar disso sempre gostei muito de me reunir com minha mãe e as minhas irmãs para tomar caipirinha e cantar cantigas eslovenas, das quais me lembro até hoje'', revela.
Dona Maria credita às orações que faz diariamente a força que a mantém lúcida e a fez superar a morte dos pais há muitos anos, do esposo em 1985 e de um de seus filhos que morreu de câncer há um ano. Ela ainda fala a língua natal e faz parte de suas orações em um livro religioso que pertencia a seu pai. ''É um livro de missa eslovena que já tem mais de 100 anos e que leio diariamente'', destaca.
Ela revela que não poder andar sozinha é o fato que mais a incomoda em relação à idade. ''Eu gostava muito de cuidar da casa e cozinhar para a família. Mas há três anos tive que parar com tudo por conta de uma artrose no quadril que só me permite andar com andador. Não poder trabalhar mais me dá muita angústia, além disso não gosto de depender das pessoas para nada e hoje meu filho caçula tem que tomar conta de mim 24 horas por dia'', ressalta.
A artrose é o único problema de saúde de dona Maria. ''Ela sempre comeu de tudo e nunca teve pressão alta ou diabetes. Acho que ela é lúcida porque sempre foi muito ativa, gostava de fazer crochê, pintar e fazia vários outros trabalhos artesanais. Infelizmente, hoje ela não pode mais fazer nada disso'', afirma o filho caçula, Douglas, 61 anos, com quem dona Maria mora em uma casa na Região Central de Londrina e recebe esporadicamente a visita dos outros filhos que também moram na cidade.
Nos períodos em que não está rezando, a pioneira gasta seu tempo vendo televisão, tirando um cochilo ou recebendo visitas. ''Adoro quando as pessoas vêm me visitar para poder bater papo. Na televisão, só vejo programas religiosos e alguns telejornais. Fico chocado com a violência que a gente vê por toda a parte hoje em dia'', salienta.
As lembranças do passado também costumam visitá-la diariamente. ''Sinto muita saudade do tempo em que eu me reunia com as minhas irmãs e nossa mãe. A gente sempre foi muito alegre e gostava de viajar juntas. Minha mãe morreu há muitos anos e hoje em dia apenas quatro das minhas irmãs estão vivas, mas todas moram longe'', relata, lembrando que uma delas também viveu até os 102 anos.
Fazendo um balanço das experiências acumuladas em mais de um século de vida, dona Maria avalia que já viveu o suficiente. ''Vivi tudo o que precisa viver, mas Deus é quem sabe quando será o momento de me levar pra junto dele'', conclui.


