Um ''santo forte'' associado ao surgimento de cidades e que inspirou artistas, considerando-se o altar-mor da igreja matriz de Batatais (SP), pintado por Cândido Portinari, ''verdadeiro monumento à iconografia universal do Senhor Bom Jesus da Cana-Verde'', celebrado a 6 de agosto. Já uma imagem de cedro que chegou ao Norte Velho do Paraná com a família do capitão Francisco Pinto, na década de 1870, é o motivo da festa em Siqueira Campos (Norte Pioneiro), que se realiza há 79 anos e já recebe 100 mil visitantes, segundo estimativas. O município tem 16,7 mil habitantes.
A programação vai de 28 de julho a 8 de agosto e Nestor Salvi, que comanda as churrascarias - dois recintos interligados por uma passarela de ferro suspensa -, imagina muito mais gente, tal a quantidade de carne. São consumidos, a cada festa, 25 mil quilos de cortes bovinos, três mil frangos e 400 leitoas, afirma Nestor, mostrando a câmara fria para 180 traseiros bovinos. ''É coisa incrível. Se você contar isso por aí, vão dizer: 'Esse sujeito (o Nestor) é mentiroso.'''
''Se não tivessem levado o Bom Jesus, aqui seria o que é Siqueira Campos'', supõe o dono de mercearia Alcides Miranda no patrimônio Nova Brasília, em Carlópolis. É que, quase junto da área ocupada pelo patrimônio, existiu o Arraial dos Pintos, onde homens armados roubaram a imagem do Bom Jesus, num confronto sangrento, 87 anos atrás. Após ações judiciais na comarca de São José da Boa Vista, que abrangia toda a região, a imagem foi entregue à Igreja de Siqueira Campos, em 1º de maio de 1934, por decreto do bispo da Diocese de Jacarezinho, dom Fernando Taddei.
Bando armado
Monopolizando as atenções, recebendo muitos donativos, enquanto as igrejas ficavam vazias, a imagem do Senhor Bom Jesus dos Pintos passou a ser cobiçada pelas paróquias. Incitados pelo padre do distrito de Salto do Itararé, o bando armado - há menções de 20 a 60 - mataram a tiros o dono da venda no arraial, que esboçou reação, feriram gravemente José de Oliveira Pinto, o ''Zeca'', e levaram a imagem da capela, no dia 26 de abril de 1933.
Ao pedir a reintegração de posse, em 15 de junho de 1933, na condição de herdeiro inconteste, Zeca Pinto - neto do falecido capitão Francisco - afirma que a imagem era patrimônio familiar há mais de 100 anos, desde Itapetininga (SP), mas o vigário de Salto do Itararé ''reuniu em torno de si diversos indivíduos e apossou-se violentamente, com armas nas mãos, daquela relíquia, não tendo recorrido (...) a nenhum meio judicial para provar direito''.
Imediatamente, o juiz Augusto Guimarães Cortes instruiu ação sumária por esbulho (roubo) contra o zelador da igreja do então distrito de Salto do Itararé, no município de Siqueira Campos. Em 1983, aos 88 anos de idade, Rodrigo José de Carvalho contou à FOLHA que, embora citado como zelador na ação, quem tomava conta da igreja era sua esposa, Amélia Bertame Carvalho. Já o vigário, ''padre Irineu, um alemão, havia desaparecido do lugar''. E coube a si entregar a imagem a um oficial de Justiça acompanhado por seis policiais militares.
Promotor removido
Segundo Rodrigo, o padre não participou do assalto ao arraial, comandado por um certo Zeca Pereira, que tinha divergência comercial com Zeca Pinto; os homens foram levados sobre as carrocerias de dois caminhões ''e fizeram a besteira''.
Seis meses depois, Zeca Pinto morre, em consequência dos ferimentos, e a Diocese de Jacarezinho reivindica a imagem, alegando a circunstância. Instruindo o processo para responsabilizar os criminosos, o então jovem promotor de Justiça Ruy Cunha, que havia assumido a sua primeira comarca, ''não encontrando no Direito nada que o autorizasse excluir a imagem do inventário do proprietário morto'', recorre ao Tribunal de Justiça contra a sentença. Mas é removido da comarca, por ordem do interventor no Estado, Manoel Ribas, a quem o bispo apelara pessoalmente.
A história da remoção do promotor foi contada à FOLHA, em 1981, pelo próprio Ruy Cunha, então professor de Direito na UEL e criador do Conselho Comunitário de Segurança de Londrina. Recordou que dom Taddei referia-se a comentários do povo de que o ''solicitador'' (acadêmico de Direito) representando Zeca Pinto na Justiça, prontificara-se a atuar mediante o recebimento de todos os donativos em dinheiro à capela do Bom Jesus. Em 1983, José Pinto - homônimo e sobrinho de Zeca Pinto - disse à FOLHA ter ouvido em família que a viúva do tio, dona Sinhana, fora induzida pelo Bispo a ceder formalmente a imagem.

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