Quatro Pontes - Por um instante, o forasteiro que chega à cidade de Quatro Pontes, um recanto de paz com 3.669 habitantes a 85 km de Cascavel (Oeste), tem a impressão que saiu do Brasil. Por ali, o sossego chegou, gostou e ficou. Se o visitante é oriundo de um dos chamados ''grandes centros urbanos'', a surpresa é ainda maior.
Em vez de buzinas e barulho de carros, o que mais se ouve é o cantar de passarinhos e o som das águas que escorrem do chafariz da praça da prefeitura, construída ao melhor estilo alemão. As casas não têm cerca elétrica. Algumas dispensam até os muros e grades. Os postes de iluminação pública são baixinhos, deixando as lâmpadas ao alcance das mãos, mas não se nota sinal de furto. As árvores são enfeitadas com placas com frases de incentivo à leitura.
No entanto, o que mais chama a atenção no município são os números. Quatro Pontes tem o segundo melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Paraná, perdendo - por muito pouco - para Curitiba. A taxa de longevidade é alta, com a expectativa de vida chegando de 77,6 anos. O índice de alfabetização é o melhor do estado e o 11º do país. Apenas duas pessoas que moram na cidade ainda não sabem ler e escrever. O índice de criminalidade é baixo. Em 2008 não se registrou nenhum homicídio.
Diante de todos esses dados, a pergunta é inveitável: qual é o segredo de Quatro Pontes? ''Educação'', responde sem titubear o prefeito Silvestre Kuhn, que não é candidato à reeleição. ''O segundo segredo é o nosso povo. Desde que nos emancipamos, há 16 anos, tivemos quatro eleições. Em três delas conseguimos chegar a um consenso e ter apenas um candidato, pois por aqui as pessoas querem o bem para a cidade. Nós optamos por investir muito em educação porque essa é a única coisa que ninguém nunca vai poder tirar da nossa gente'', completa.
A receita do município é de R$ 6,5 milhões por mês. Desse dinheiro, apenas 32% está comprometido com o pagamento dos 130 funcionários públicos. Por isso, sobra dinheiro para aplicar em educação e proporcionar certas regalias aos que querem aprender, como utilizar um dos cargos comissionados para contratar uma professora para dar aula em casa àqueles que ainda estão em fase de alfabetização.
A missão coube à professora Clarice de Souza, que cuida de alunos bem interessantes. Trata-se de uma turma já experiente, que faz parte da gauchada e dos catarinenses, grande parte de ascendência germânica, que chegaram ao Oeste do estado em meados do século 20. Até hoje eles se comunicam em alemão e não falavam nada em português antes de começarem com as lições do beabá.
Os ''alemães'' estão felizes da vida por, finalmente, aprenderem a falar a língua da terra que os acolheu. ''Meu coração agora bate alegre. Tudo o que aprendo acho muito bonito'', testemunha, ainda com um forte sotaque germânico, a agricultora Ilda Mayer, 66 anos, que agora pode assinar seu nome, deixando de lado os dedos borrados de almofadas de carimbo a cada vez que precisava assinar um documento.
Na escola municipal, além das lições das disciplinas corriqueiras também faz parte do currículo o cuidado com o patrimônio público. Daí a explicação de tudo em Quatro Pontes estar tão bonito e em ordem. Uma prova concreta de que investir em educação dá resultado.

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