Um quebra-molas em frente de casa
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terça-feira, 12 de março de 2002
Mauricio Della Barba 
Mário chegou a Câmara decidido. Queria porque queria que algum vereador lhe ouvisse. Sonhava com um quebra-molas em frente a sua casa, tantos eram os acidentes no local.
Ao descer do ônibus, se deparou com as imponentes construções do Centro Cívico. Pediu informações e descobriu onde era a tal Câmara de Vereadores. Assustado, Mário pegou um crachá e teve acesso às galerias. Era dia de sessão.
Sentou-se timidamente em meio a outras poucas pessoas. Do alto, pôde ver, pela primeira vez, como funcionava o legislativo. Conhecia de vista, talvez de alguns santinhos, uns dois ou três vereadores.
Tudo era muito bagunçado. Enquanto um falava ao microfone, outros conversavam entre si e riam, como contassem uma piada, sem ao menos olhar para o infeliz no palanque. Achou aquilo uma profunda falta de respeito. Longe de se preocupar com isso, o vereador discursava como se fosse um presidente máximo, parecendo estar imune à pouca atenção dispensada pelos colegas. Misturava palavras elegantes com outras um tanto quanto cafonas, que Mário pouco entendia.
Dos 21 vereadores, Mário contou que apenas 15 estavam presentes. Ele tentava compreender aquilo tudo. Repórteres, radialistas, câmeras de TV gravavam algumas entrevistas. Descobriu que a discussão era sobre um projeto do prefeito. Oposição, que era da direita, não queria a aprovação. A situação, que era da esquerda, lutava pelo consenso. Confundiu-se mais ainda. Palavras gritadas no microfone, ofensas de um lado, radicalismo em outros, e muita discussão. Mário então percebeu que a briga era outra. Era briga de interesses. Interesse de se dar bem, de conseguir benefícios, com o aval do povo.
De repente, tudo parou. Um deles avisou que a sessão estava suspensa por uma hora. Saíram alguns, ficaram poucos. Imprensa e um bando de assessores em correria. Mário percebeu que era a hora de requisitar o quebra-molas. Desceu as galerias, mas foi impedido de entrar nos corredores do plenário. Subiu, foi até o gabinete de um vereador e recebeu o conselho para voltar outro dia. A sessão iria ser demorada e possivelmente o vereador não poderia atendê-lo.
Frustrado, saiu de cabeça baixa e rumou para o ponto de ônibus. Foi embora sem ser ouvido, sem ter conseguido o que queria. Afinal de contas, porque os vereadores se preocupariam com um simples quebra-molas.


