Um pouco de paz para a rua que abrigou felicidade
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 22 de outubro de 2001
Denise Angelo 
Batizada com o nome de um dos maiores escritores paranaenses, a Rua Emílio de Menezes, em Ponta Grossa, perdeu sua característica de uma via tranquila e aconchegante por culpa justamente daqueles que deveriam contribuir para mantê-la como no passado.
Passagem de poucos veículos, a Emílio de Menezes vivia momentos de alegria e frustração apenas quando o memorável Fantasma de Vila Oficinas - o nome carinhoso e de certa forma assustador que o Operário Ferroviário Esporte Clube ganhou de seus fãs - travava suas batalhas no estádio Germano Kruger, que tem sua entrada principal justamente na nossa personagem.
Mas alguns efeitos nocivos do progresso, fruto da falta de planejamento, e a tolice de poucos fizeram dela um horroroso corredor. De entrada para casas de família, duas lojas pitorescas, uma escola primária e uma igreja com a pracinha adjacente, virou saída.
A rua, que um dia foi pacata, transformou-se, à custa de alguns centímetros de asfalto e muitas placas, na principal saída de Ponta Grossa. E todo aquele que buscava sair da cidade, seja por necessidade, medo ou interesse, era por ela forçado a passar.
Com os carros, veio o barulho. Caminhões carregados e ônibus lotados e sacolejantes levaram embora a vida e a tranquilidade da rua. Assim também foram embora os pássaros que se abrigavam na pracinha da igreja, o sossego das mães que levavam os filhos à escola e até mesmo dos moradores, agora confinados atrás de seus muros e grades, muitos deles derrubados à força das marretas porque foram destruídos por monstros de ferro e aço que neles se chocaram.
Hoje, a velha rua não tem mais paralelepípedos, capim nascendo entre as pedras, crianças brincando nas calçadas. Descaracterizada há alguns anos, a rua está coberta de asfalto. No lugar das árvores, têm radares, placas e lombadas em toda sua extensão.
As casas, que antes espelhavam felicidade, estão ficando vazias. Uma a uma as famílias dali se mudam, cansadas do barulho e irritadas com o perigo. Decadente como a rua, o Operário também se foi e o Germano Kruger é não passa hoje de uma pálida imagem do glorioso estádio de anos atrás.
Os que ficaram, porém, ainda têm esperanças e sonhos. Que voltem os paralelepípedos nos lugar do asfalto, que nasçam novas árvores onde estão os radares e placas, que as lombadas e o tráfego pesado encontrem uma via apropriada e devolvam, a Emílio de Menezes, as famílias, as crianças, a paz e um sentido de vida.


