Foi numa estradinha vicinal, ladeada pela soja recém-plantada, que encontramos um senhor de 81 anos, de passos firmes, caminhando mais de quilômetro para chegar ao sítio hoje tocado pelos filhos. Ele é José Kawka, pioneiro da Colônia Gleba Orle, um lugarejo que começou a ser colonizado em 1937 e hoje faz parte do município de Arapongas (Norte), abrigando uma bonita igrejinha, escola primária que atende a 32 alunos, um telefone público e poucas
casas.
  Atencioso, Kawka não recusou conceder entrevista, logo convidando os jornalistas para terminar de chegar até o sítio da família para prosear na varanda. Ele é filho de Estanislau Kawka, considerado o precursor da imigração polonesa para a colônia do Norte do Paraná.
  ‘‘Foi por meio de uma propaganda da Companhia de Terras, ainda em Lublin, na Polônia, que meu pai conheceu este lugar e decidiu comprar um lote e tentar a vida’’, ele começa a contar.
  Gentis, Domingos e Walter, filhos de José, trazem livro - ‘‘A presença eslava na formação de Arapongas’’ (Ed. Vicentina, 2008) - escrito por uma prima, a historiadora Cláudia Regina Kawka Martins.
  ‘‘Aí conta muita coisa’’, aponta o pioneiro. A obra mostra que 1,2 milhão de hectares formavam originalmente a Gleba, cujo nome, Orle, significa na língua polonesa ‘‘filhote de águia’’ ou ‘‘águia que nasce’’.
  A Companhia de Terras Norte do Paraná vendia lotes de 12,5 hectares por 2,5 milhões de réis, com entrada de 800 mil réis e o restante pago em três anos. Juros de 8%.
  O Paraná, desde o final do século 19, era reduto de poloneses. O livro registra que, em 1937, Curitiba tinha 100 mil habitantes, 10% deles oriundos da Polônia. No Estado, que tinha população total de 1,2 milhão de pessoas, eram 150 mil poloneses - a grande maioria na porção Sul.
  No Norte, a presença eslava começou a se fortalecer com a formação da Colônia Orle, que diferiu das outras colônias de poloneses pela presença de gente de várias etnias, principalmente brasileiros e italianos, além de ucranianos, que chegavam como se viessem da Polônia por serem originais de uma região da Ucrânia que estava anexada ao território
polonês.
  ‘‘Quando chegamos, tudo era muito difícil. Demorou para que aprendêssemos a lidar com a terra vermelha. Arapongas praticamente não existia. As compras eram feitas em Rolândia e, administrativamente, pertencíamos a Londrina. Mas todos tinham a preocupação de estabelecer a família. Tanto que nossa escola é de 1939, construída pela comunidade, que se cotizava para pagar o professor’’, explica José.
  ‘‘A mata era tamanha que meu pai dizia, com certeza absoluta, que as árvores daqui jamais acabariam, porém elas praticamente se acabaram’’, completa.
  Casado com Eva, pai de seis filhos e avô de seis netos, José Kawka é um homem enraizado na Gleba Orle. Vive de bem com a vida em um lugar onde parece que o tempo passa mais devagar. E gosta de conversar. ‘‘É muito bom recordar a nossa história, principalmente quando ela é bela’’, finaliza.

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