Um pedaço da Londrina rural na linha 260
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sábado, 04 de dezembro de 2004
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
O motorista Zenaldo Basílio da Silva, 28 anos, é um felizardo. Diariamente ele tem na sua frente uma paisagem destas que os moradores da cidade só costumam ver com frequência penduradas na parede, em telas a óleo. É Silva quem transporta, no horário das 12h30 às 17h10, os passageiros que têm como destino a localidade batizada de Usina Três Bocas, na Zona Sul de Londrina. No percurso da linha 260 da Francovig um retrato bucólico do município: morros de verde intenso, açudes que mais parecem espelhos refletindo a luz do sol, pesque-pagues convidando para o lazer. Tudo isso somado ao irresistível cheiro de mato, que inunda o microônibus assim que ele entra na Rodovia João Alves da Rocha Loures.
A viagem é tranquila no meio da tarde. O veículo de apenas 18 lugares, utilizado nos horários de menor demanda, sai do Terminal Acapulco com menos da metade dos lugares ocupados. O público é diversificado: estudantes, moradores que saem do populoso Jardim União da Vitória (Zona Sul) para trabalhar em outras regiões da cidade e trabalhadores rurais. Nos finais de semana, a linha ainda transporta familiares dos detentos da Casa de Custódia e dos adolescentes apreendidos na Unidade Social Oficial de Internação de Londrina (Usoil), o Educandário. Ambos ficam na rota do ônibus, logo depois do limite entre zona urbana e zona rural.
A empregada doméstica Gisele Silva dos Santos Pereira, de 19 anos, pega o ônibus diariamente para voltar pra casa. Ela mora no União da Vitória e trabalha no Condomínio Vale das Araucárias (também na Zona Sul, mas a bons quilômetros de distância). Gisele conta que, embora tenha que pegar outro ônibus para chegar ao terminal, o trajeto é tranquilo. ''Essa linha só é mais movimentada no final da tarde, quando inclui o Distrito de Maravilha. Mas aí eles colocam o ônibus maior (convencional, com 32 lugares)''.
Passageiro já conhecido dos motoristas, mas não tão assíduo quanto Gisele, é o adolescente Carlos Henrique Pereira da Silva, de 16 anos. Filho de agricultores mas com aparência típica de garoto da cidade, ele estuda em colégio no Centro da cidade e na maioria dos dias usa transporte escolar, cumprindo a puxada rotina de sair de casa às 5h50 e voltar às 13 horas. De vez em quando, porém, ele opta por ir embora utilizando a linha 260, que é mais rápida. ''O ônibus do transporte escolar é de graça, mas a gente leva quase uma hora para chegar, porque vai parando em várias escolas. Aqui a gente paga mas chega na metade do tempo'', argumenta o garoto, que vai até o ponto final do coletivo, a Venda do Parra, e ainda caminha mais alguns minutos até chegar em casa.
Outra adolescente, Kely Aparecida de Souza, de 15 anos, tem rotina semelhante. Ela cursa a 7 série em escola nas proximidades da Avenida Inglaterra e pelo menos uma vez por semana volta à cidade no período da tarde para visitar a irmã no Jardim Leonor (Zona Leste). Os finais de semana também são passados longe da tranquilidade da Usina Três Bocas, que um dia já abrigou a primeira usina de energia elétrica do município.
''Eu tenho que pegar três ônibus e levo quase duas horas para chegar no Leonor, mas eu enfrento porque a maioria dos meus amigos estão lá.'' Mesmo assim, Kely não se queixa da tranquilidade do lugar escolhido pela mãe para fixar residência. ''Moro lá desde que nasci'', relata.
Para Zenaldo da Silva, o sossego que caracteriza seu dia-a-dia atrás do volante pode estar com os dias contados. ''Sei que estou nesta linha porque sou novo na empresa, e eles costumam nos colocar num trajeto mais tranquilo até a gente se acostumar com o trabalho. Pode ser que daqui a uns tempos eu seja transferido para uma linha de maior movimento'', conforma-se o motorista, contratado pela Francovig há menos de um mês.


