Um pé-de-bode de parar o trânsito
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domingo, 21 de outubro de 2007
Marco Feltrin<br>Reportagem Local 
Andar no carro do médico Paulo Cézar Nassar Frange é voltar no tempo. Mais precisamente no final da década de 1920, quando começou a ser fabricado nos Estados Unidos o Ford-A, segundo carro da história a ser montado em série. O barulho do motor, o assoalho de madeira, o câmbio de três marchas e o acelerador de mão fazem do passeio uma aventura nostálgica de uma época em que andar de carro era luxo para poucos. No final dos anos 1920, havia mais de 400 habitantes por veículo no Brasil. A proporção atual é de um veículo para cada cinco habitantes.
O modelo, lançado no auge de uma das maiores crises econômicas dos Estados Unidos, - a quebra da bolsa de Nova York em 1929 - surgia como alternativa viável para quem procurava um veículo de baixo custo, mas com robustez.
A reportagem da FOLHA pôde comprovar a potência do carro logo no início do passeio, quando Nassar encarou uma subida íngreme sem dificuldades, mesmo sem bomba de combustível, injeção eletrônica e outras modernidades dos carros atuais. Na subida, foi possível descobrir o porquê da expressão ''pé na tábua'', já que para atingir o limite da aceleração é preciso encostar o pedal até o assoalho do carro, feito de peroba.
A paixão do médico por carros antigos vem desde a juventude, quando, incentivado pelo tio, restaurou um Ford semelhante ao que tem hoje, mas com quatro portas. ''Rodávamos bastante com o carro, viajando longas distâncias para pescar com a família'', recorda. Junto com sócios e parentes, Paulo Cézar restaurou motos e outros carros, como um Citroen exposto em uma concessionária da cidade.
Há sete anos, Nassar passou a usar as poucas horas que sobram da atividade médica para se dedicar à montagem do Ford-A 1929, começando praticamente do zero. ''Um mecânico tinha um conjunto de peças suficiente para montar a parte mecânica do carro. Aí tive de pensar em todas as opções de lataria, para deixar o mais fiel possível ao modelo original'', conta o médico, que conseguiu o manual original do veículo para ajudar na customização.
Para concretizar o sonho de ver o ''pé-de-bode'' em ação, Nassar buscou peças em oficinas e ferros-velhos da região, fez pesquisas via internet e encomendou a produção das peças que não encontrou. ''Londrina tem muitos artesãos de carro, e eu quis valorizar a mão-de-obra local''.
A referência à cidade não para por aí. Os Fords produzidos na década de 1920 eram todos da cor preta, para a tinta secar mais rápido e acelerar a produção em série. Na hora de montar o carro, o médico optou pelo vermelho ''para homenagear a terra vermelha''.
Apesar da beleza do carro chamar a atenção de todos na rua, a customização do Ford 1929 ainda não está finalizada. Falta fechar o capô do carro, mas o proprietário já tem todas as peças e precisa apenas ajustar a altura do motor para encaixar a cobertura da parte frontal.
Mesmo sem terminar o carro, Nassar já tem planos de vendê-lo. Mas será que ele não sente pena de se desfazer de algo que demorou tanto tempo para ficar pronto? ''O prazer maior está em construir o carro, preservar um patrimônio antigo. Falei para alguns amigos, mas não tenho pressa de vender. Não coloco na internet, não faço publicidade. Enquanto não aparecer alguém que se identifique com o carro, não vendo''.
Segundo Nassar, que tem outras duas latarias de Fords antigos na garagem, o hobby não pode ser encarado como investimento. Ele gasta entre R$ 15 mil e R$ 20 mil para customizar o veículo, que tem valor semelhante no mercado.
Para o médico, o maior valor do Ford 1929 está na lição passada para as duas filhas, que participaram da montagem do carro dando idéias e sugestões. Nassar diz que a sociedade atual é muito imediatista, se esquecendo que um sonho precisa passar pelo esforço e dedicação para ser realizado. ''As pessoas querem as coisas prontas, não pensam em construir seus ideais. Essa geração absorvida pelo consumismo não enxerga a possibilidade de construir e valorizar os próprios sonhos''.


