Um passado para esquecer
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 24 de maio de 2013
Micaela Orikasa<br>Reportagem Local 
"É muito difícil chegar em uma casa para checar uma denúncia e ver o pedido de socorro e proteção nos olhinhos de uma criança. Nessa hora, você segue o protocolo e faz todos os encaminhamentos, mas fica com a sensação de que é pouco. Essas crianças que são vítimas têm uma página em branco que, infelizmente, é escrita com abuso, violência". Esse desabafo é da conselheira tutelar da região Norte em Londrina, Marina de Andrade Bárbara.
Atuando há cinco anos no órgão que recebe denúncias de qualquer tipo de violência contra crianças e adolescentes, Marina revela que por mês o Conselho Norte recebe uma média de 25 casos, por telefone e notificações encaminhadas por órgãos de assistência social e saúde.
"É preciso ter mais propagandas e campanhas sobre o tema. Proteger a criança não é só em uma data. É todos os dias. A vítima precisa ser ajudada. Se ela não tiver um acompanhamento psicológico, pode vir a se tornar um adulto com muitos problemas e que, inclusive, poderá reproduzir essa violência", afirma.
Essa realidade, que muitas vezes é velada e distante de grande parte da sociedade, infelizmente é mais frequente do que se imagina. Um levantamento do sistema de Vigilância de Violências e Acidentes (Viva), do Ministério da Saúde, revela que em 2011 foram 14.625 notificações de violência doméstica, sexual, física e outras agressões contra crianças menores de dez anos. Desta estatística, a violência sexual é representada por 35%.
Ao dimensionar esta visão para o município, pode-se afirmar que ao menos quatro mil crianças são atendidas no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) 3 a cada ano e grande parte desses atendimentos é relacionada à violência sexual.
Nos últimos dias, a sociedade londrinense se chocou com a notícia de que uma figura política foi presa, suspeita de praticar crimes sexuais contra crianças. O fato foi noticiado dois dias depois do Dia Nacional de luta contra o abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes, celebrado em 18 de maio.
Com isso, as discussões quanto aos direitos, denúncias e prevenção se reacenderam. A psicóloga Edmarcia Manfredin Vila colabora com sua experiência, reforçando a importância também do tratamento à vítima, principalmente quando é uma criança que sofre a violência.
Impacto
Colaboradora há dois anos do Núcleo de Estudos e Defesa dos Direitos da Infância e Juventude (Neddij), um projeto de extensão da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Edmarcia explica que os profissionais da Psicologia atuam no acolhimento das vítimas, respeitando suas diversidades e avaliando o impacto da violência no comportamento das mesmas.
"A gente quer a criança aprenda a lidar com a situação traumática porque não necessariamente ela tem que estar 'condenada' a ser infeliz para o resto da vida. Ela pode aprender comportamentos de resiliência, que é saber lidar com eventos traumáticos da vida. Nosso trabalho é para que essa vítima tenha um desenvolvimento biopsicossocial de forma adequada", declara Edmarcia.
De acordo com ela, o tipo e tempo de tratamento depende muito do impacto do trauma. Em relação à estrutura emocional, ela explica que a vítima deve ser submetida a tratamento psicológico, mas que os pais ou cuidadores também devem ser orientados. "Eles precisam tratar a criança como uma pessoa normal. Os pais não podem olhar para a vítima com diferença ou só sentir pena. Os familiares têm que cuidar dela como alguém que vivenciou um evento traumático, mas entender que a vida dela continua", diz.
Quando se constata que a vítima precisa de uma psicoterapia, o encaminhamento é feito para a Clínica Psicológica da UEL, onde as crianças são atendidas em salas isentas de ruídos externos e decorada com brinquedos. Tudo isso porque, segundo Edmarcia, as crianças são diferentes dos adultos. "Elas não chegam relatando o que aconteceu. Precisamos desenvolver uma confiança com o terapeuta e, além disso, utilizamos de brincadeiras, técnicas de desenhos e livros infantis para que ela sinta confortável em contar a situação do abuso ou violência", ressalta.
Segundo a psicóloga, falar sobre a situação vivenciada é "como se a pessoa olhasse para o passado e com isso várias respostas emocionais vão surgindo, como o choro, a raiva ou até medo. É como rever de novo tudo o que ela sofreu e a partir disso conseguir colocar uma pedra em cima. Isso vale tanto para a criança quanto para o adulto".
Quando a vítima não recebe tratamento, pode desenvolver graves transtornos psicológicos, como depressão ou se tornar uma pessoa hostil, com aversão à sexualidade ou ainda um indivíduo muito sexualizado, ou seja, com muito interesse em situações sexuais. "A literatura coloca um hall de consequências, só que é preciso analisar caso a caso, de acordo com o contexto social, do vínculo familiar, etc", salienta.
Denuncie:
Conselho Tutelar: 125
Direitos Humanos: 100
Polícia Civil: 181
Bombeiros/Siate: 190
Creas: 3378-0563


