Um olhar de medo sobre a bela cidade
Há dez anos, quem andava pelas ruas de Curitiba ainda conseguia ver a cidade e admirar coisas boas. Hoje, a violência não permite que se olhe a cidade com os mesmos olhos. Na Rua XV, o calçadão feito para incentivar as caminhadas, um dos ícones da qualidade de vida, serve para passar medo. Quem já não foi assaltado, furtado ou pelo menos olhou em volta antes de entrar no caixa eletrônico? Os pedestres estão à procura de suspeitos, olham ao redor e não enxergam a mesma cidade. A cidade que vêem é outra.
A paranóia é a mesma, ou pior, no trânsito. Seja qual for a hora, pode-se observar vidros se fechando quando os carros param no sinal vermelho. Antes de aceitar um panfleto do menino que vai de carro em carro, o motorista avalia se o entregador não pode ser um assaltante. Outro dia, na Avenida das Torres, horário do almoço, uma moça ficou em pânico ao ver um rapaz pular dentro do carro da frente, em meio vidro aberto do lado do passageiro. Só viu as pernas sobrarem do lado de fora. A confusão dos motoristas apavorados atrás do carro da vítima causou uma batida. Mas, mesmo com o prejuízo com a lataria amassada, ninguém quis tirar satisfação. O medo foi maior. É melhor salvar a vida e só imaginar: o que teria acontecido com a vítima do assalto? Será que ele teve a mesma sorte?
Um outro caso que chamou a atenção nos noticiários locais foi o do sequestro de uma dentista com seu bebê de oito meses. O assaltante tomou o carro e ficou duas horas com mãe e filho como reféns, assaltou um posto de gasolina e foi perseguido pela polícia. No final do dia, a vítima ainda podia dizer que teve sorte. Tudo acabou bem. Bandido preso, mulher e bebê sãos e salvos. Resta imaginar como se sentirá essa mulher a partir desse episódio. Como se sentirão todas as pessoas ao se imaginarem na mesma situação. Será que é melhor ficar em casa, bem trancado?





