Silvana Leão
De Londrina
O prefeito Antonio Belinati (PFL) sanciona esta semana o projeto de lei que cria a Secretaria do Idoso de Londrina. O projeto, de autoria do próprio Executivo municipal, foi aprovado em segunda e última votação na última terça-feira. O prefeito teria prazo de 15 dias para sancionar ou vetar o projeto. Mas na tarde de sexta-feira ele informou à Folha que sancionará a proposta ‘‘imediatamente’’, no decorrer da semana.
Os recursos para o novo órgão serão remanejados de outras secretarias, segundo Belinati. Quando anunciou a proposta de criação da Secretaria do Idoso, há cerca de dois meses, o prefeito já havia, inclusive, apontado o nome do médico cardiologista Luiz Carlos Miguita para assumir o cargo de secretário.
Segundo Belinati, Miguita foi escolhido pelo fato dele trabalhar há vários anos na área. ‘‘A secretaria cuidará da saúde, nutrição, da parte ocupacional e do lazer dos idosos. Terá uma área de atuação bastante abrangente’’, explicou o prefeito, lembrando que Londrina será a primeira cidade do Brasil a contar com uma secretaria específica para os idosos.
A idéia, ainda de acordo com Belinati, é que o órgão funcione, no futuro, nas mesmas instalações do VÔ, centro de atendimento ao idoso que deverá ser construído ainda nesta gestão.
A criação de um órgão específico para a terceira idade agrada os profissionais que atuam na área. Há a preocupação, porém, de que a iniciativa não se restrinja a trabalhos burocráticos em torno das pessoas acima dos 60 anos. ‘‘O principal ponto a ser trabalhado deve ser a imagem do idoso, no sentido de quebrar o preconceito existente e resgatar a sua cidadania’’, diz o médico geriatra e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Marcos Cabreira.
O médico observa que há pelo menos 10 anos as questões relacionadas ao envelhecimento são discutidas em Londrina. Ele lembra que um órgão voltado ao idoso deve ter como objetivo suas verdadeiras necessidades, como a abertura do mercado de trabalho; a adaptação da cidade para recebê-lo (a chamada concepção geriontológica da arquitetura urbana), com mudanças nas calçadas, escadas e estrutura dos ônibus; verificação das instituições asilares e trabalhar para que a saúde enxergue o idoso de maneira diferente, como alguém que tem necessidades específicas.
Entre estas necessidades específicas citadas pelo médico estão o atendimento multidisciplinar. ‘‘Não basta submetê-los a consultas onde só se fala de doenças e doses de remédios. Não temos que dar consultas, mas condições do idoso trabalhar sua saúde, resultando num processo de sociabilização.’’
Na opinião de Marcos Cabreira, há alguns pontos críticos envolvendo a terceira idade no Brasil, entre eles o acesso à saúde pública e a questão dos idosos dependentes – é preciso um maior preparo dos cuidadores e dos locais destinados a recebê-los. Segundo o geriatra, aproximadamente 8% da população de Londrina é formada por pessoas idosas, um índice que subirá para 15% em 20 anos.
O geriatra João Batista de Lima Filho, de Cornélio Procópio, representante da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) junto ao Comitê Organizador do Ano Internacional do Idoso e das Pastorais da Criança e da Terceira Idade no Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS), tem uma posição parecida com a de Cabreira.
Na opinião de Lima Filho, uma secretaria da terceira idade deve ter o objetivo de articular no município ações da lei nº 8.842, que prevê a política nacional do idoso, e não restringir-se a ações de pequeno impacto.
‘‘Na verdade, o idoso tem que fazer parte de todas as secretarias’’, diz o geriatra, que ajudou a fundar a primeira Faculdade da Terceira Idade (Fatei) do País, em 1992, em Cornélio Procópio. Ele lembra que são raros os municípios que têm ações concretas baseadas na lei do idoso. ‘‘A nova secretaria deverá trabalhar neste sentido’’, recomenda.
O geriatra lembra também que a Universidade Estadual de Londrina (UEL) é a segunda instituição de ensino superior do País que mais apresenta trabalhos de pesquisa voltados ao idoso. ‘‘São trabalhos reconhecidos nacionalmente, voltados à manutenção da cidadania destas pessoas, que poderiam ser melhor aproveitados. Seria muito interessante uma parceria da secretaria com a Universidade.’’

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