Quem mora na rua Hikoma Udihara já se habituou a ter que soletrar esse nome toda vez que precisa dar o próprio endereço. Fora esse pequeno contratempo, porém, os moradores parecem não ter reclamações sobre a rua, localizada no Jardim San Fernando, na Zona Leste de Londrina.
''Moramos aqui há dois anos. A região é ótima, tem acesso a vários comércios, farmácia, mercado. Não é uma rua tão calma, mas também não tão movimentada'', comenta o casal Elaine Cristina Matias, 30 anos, e Airton Capassi, 42. ''Só tive um pouco de dificuldade para aprender o nome da rua no começo'', revela Elaine. Já Airton, sem muita certeza, às vezes chama a rua de Ikoma Udiara, sem pronunciar o h. Mas vale esclarecer que, em japonês, a letra h tem som de rr.
Se a própria pronúncia já gera dúvidas, saber quem foi o Hikoma Udihara que dá nome à rua também é uma incógnita para os moradores ouvidos pela reportagem. ''Acho que ele foi um médico, mas não tenho certeza. Meu pai é que sabe'', afirma a estudante Janaína Fernandes, 20 anos, que mora na rua desde que nasceu, e considera a vizinhança ''igual a uma família''.
''Eu acho que foi um japonês, e deve ter sido boa gente, pra ganhar uma rua com seu nome'', brinca Airton, acrescentando que considera importante homenagear personalidades locais nas ruas da cidade e divulgar quem foram.
Então vamos lá: a Rua Hikoma Udihara ganhou esse nome pela lei 2.731, de 31 de janeiro de 1977, para homenagear o pioneiro que vendeu - e para um japonês - o primeiro lote de terras pela Companhia de Terras do Norte do Paraná (CTNP) na região onde posteriormente seria fundada a cidade de Londrina. ''A rua foi uma justa homenagem a um homem que foi extremamente progressista'', comenta Issao Yassuda Udihara, neto do pioneiro.
Hikoma Udihara nasceu em 8 de novembro de 1882, na província de Kochi, no Japão, mas passou 63 anos de sua vida no Brasil. Foi amigo pessoal de Arthur Thomas e Willie David, e, como chefe de vendas da CTNP, foi um dos responsáveis por atrair tantos imigrantes japoneses para o Norte do Paraná.
Empreendedor, Udihara é lembrado também por seus filmes em 16 mm em que registrou o nascimento e crescimento da cidade. ''Ele utilizava esses filmes para mostrar a pujança da cidade'', explica o neto. Por causa desses registros, hoje guardados no Museu Histórico Pe. Carlos Weiss, Udihara é considerado por muitos o primeiro cineasta da cidade.
Issao conta que seu avô também ajudou a arrecadar fundos para construir a Santa Casa de Londrina, foi cidadão honorário de Londrina e do Paraná, ganhou dezenas de prêmios de honra ao mérito e até uma condecoração do imperador do Japão, em reconhecimento à sua contribuição à comunidade japonesa. Além de uma rua, Hikoma Udihara dá nome também a uma escola da cidade.
Dos três filhos que o pioneiro teve, dois se formaram médicos. Um deles foi o primeiro filho de japoneses a ingressar na faculdade de medicina da Universidade de São Paulo (USP). O outro, Issao, foi um pediatra bastante conhecido que ajudou a fundar, junto com a esposa Casuhê, o Instituto Londrinense de Educação para Crianças Excepcionais (Ilece). Por tudo isso, também virou nome de rua.

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