Um 'museu' escondido no Jardim Aragarça
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domingo, 04 de janeiro de 2009
Fernando Rocha Faro<br>Reportagem Local 
Londrina - Cinco minutos na frente da casa são suficientes para se ter uma idéia do sucesso da exposição permanente de objetos antigos da família Brenes. Não há quem não admire as carroças estacionadas no local. Muita gente pára e pede para tirar fotos. As peças são apenas uma amostra de uma verdadeira viagem no tempo, que começa já no quintal.
Para todo lado que se olha, um pedaço da memória do País. Estantes e paredes estão tomados por peças históricas. A coleção impressiona tanto pela qualidade quanto pela quantidade. Lampiões, panelas de ferro, secador de cabelo, relógios fazem parte do acervo. O número de objetos é tão grande que até os hóspedes da família perderam seu espaço. O quarto destinado aos visitantes virou abrigo dos utensílios.
''Precisamos liberar o quarto quando nossa filha veio com os quatro filhos da Inglaterra'', conta a dona de casa Guiomar Fernandes Brenes, 62 anos. Sem problema. Um espaço nos fundos do imóvel foi improvisado para abrigar as peças. Ela foi a pioneira no hábito da família de acumular antiguidades.
No início, o aposentado Matheus Brenes, 66, não concordou com a idéia. Mas bastou que o hábito se transformasse numa fonte de renda para que ele revesse seus conceitos e também entrasse de cabeça no negócio. A compra e venda de objetos históricos é hoje a principal forma de sustento da família. E uma paixão do casal.
O apego ao acervo é tanto que Guiomar garante que há objetos não negociáveis. Pela beleza dos exemplares, dois lampiões expostos numa estante da sala não saem da casa por dinheiro nenhum, garante a dona. As peças dividem o espaço com a coleção de panelas e caçarolas, que atrai a atenção pela diversidade de cores e tipos de metais.
A paixão de Matheus Brenes é pelas carroças. São quatro na coleção e outra já foi comprada. A mais antiga foi comprada de uma família de Ribeirão Claro. Os herdeiros que fecharam o negócio garantiram que o veículo, que pode ser puxado por um ou dois cavalos, tem mais de 58 anos de uso. Outra peça chama a atenção por ter placa de identificação. ''Pretendo ir até a prefeitura de Ribeirão Claro para descobrir mais informações sobre essa carroça'', adianta Matheus Brenes.
A preferência dele pelos veículos de tração animal tem explicação que remonta à infância. Quando ainda morava em Marília, no interior paulista, uma das principais diversões era ficar na oficina de fabricação de carroças de um tio. Mesmo novo para pegar no batente, a observação garantiu conhecimento suficiente para fabricação dos veículos. ''Esse ano vou construir um carro de boi'', revela.
No quintal, um arado divide o espaço com uma bola de ferro provavelmente usada para impedir a fuga de escravos. Os donos, porém, não podem confirmar a informação oficialmente. Não têm também dados precisos sobre as datas de fabricação da maioria das peças, que ficam em exposição espalhadas pela casa.
O encanto de Guiomar pelas peças antigas foi o incentivo para começar a comprar. O investimento inicial não passou de R$ 10,00. E o crescimento da coleção foi proporcional ao aumento da clientela. A propaganda sempre foi boca a boca e a clientela é fiel. As carroças também são um chamariz, mas o casal prefere que a divulgação não passe disso. Por motivo de segurança, prefere, por exemplo, não colocar o acervo na internet.
A atividade está longe de ser uma unanimidade na família. Os seis filhos ainda criticam os pais pela ''mania'' de juntar coisa velha. Opinião semelhante, na visão de Matheus e Guiomar, de grande parte da população. ''O brasileiro só quer saber do presente e não se preocupa com o passado'', avalia a dona de casa.
A paixão pelas antiguidades, no entanto, não se transformou num programa de família. Matheus nunca foi a Museu Histórico da cidade e Guiomar fez apenas uma visita, mais de 40 anos atrás. Mas o sonho ainda é ter o próprio acervo ainda mais organizado, um verdadeiro ''museu'' doméstico.
Para isso, a casa da família precisa de uma reforma, que inclui a construção de uma sobreloja. Matheus e Guiomar não estão preocupados com prazos para viabilizar o projeto. Mas é bom não duvidar do casal que, com a compra e venda de antiguidades viabilizou uma fonte de renda. Suficiente para que a dona de casa pudesse realizar sonhos mais urgentes, como trocar a televisão, geladeira e máquina de lavar roupas.


