Um momento para se descobrir
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quinta-feira, 02 de julho de 2009
Marian Trigueiros<br> Reportagem Local 
Enquanto muitos não veem a hora de a aposentadoria chegar para dar início a vários projetos, outros não sabem o que vão fazer sem o trabalho formal, temendo sentir-se perdidos com o tempo livre. Para todos, porém, a aposentadoria representa o fim de uma fase produtiva e o início de outra com perspectivas diferentes.
Por causa dessa ruptura, o momento deve ser trabalhado da melhor maneira, a fim de não trazer transtornos. A aposentadoria é considerada uma das mais importantes etapas da vida do ser humano. Tanto que a Universidade Estadual de Londrina (UEL) desenvolve o projeto ''Envelhecimento, trabalho e aposentadoria: desmistificando essa relação'', realizado em empresas estatais e privadas. A iniciativa visa fortalecer a compreensão e a preparação para o verdadeiro sentido da aposentadoria e a descoberta de identidade do indivíduo.
Segundo a coordenadora do projeto, a docente do Departamento de Psicologia Social e Institucional Aurora Fernades Gonçalves, é muito comum a associação entre aposentadoria, envelhecimento e morte. ''Isso está no imaginário das pessoas e dos trabalhadores. O projeto, entre outras coisas, tem o objetivo de desmantelar essa tríade de que vamos nos aposentar, envelhecer abruptamente, adoecer e morrer'', explica.
Ela ressalta que essa ideia se baseia no fato de o trabalho ser uma fonte de muitos elementos para a vida humana. ''É no trabalho que o ser humano se desenvolve, estabelece relações sociais, que tem o status profissional. O trabalho permite características importantes para a formação da identidade. E quando tudo isso vai ser deixado para trás, imagina-se que as pessoas vão deixar de ser produtivas ou de ser alguém.''
O trabalho realizado junto a empresas busca, portanto, diminuir o impacto psicológico do desligamento na vida dessas pessoas, por meio de um processo de reflexão sobre si mesmas. ''Fazemos com que as pessoas reflitam sobre suas vidas, sua existência, sua identidade, de tal forma que consigam descobrir potencialidades que foram deixadas de lado, desejos que não foram realizados. Toda nossa estratégia é no sentido de levar as pessoas a voltarem para si mesmas e se redescobrirem enquanto pessoas'', observa Aurora.
Para a professora, o trabalho formal acaba absorvendo muito pouco do talento de cada um. ''O trabalho quer apenas sua habilidade de fazer isso ou aquilo. Mas a parte artística, emocional, afetiva, sexual, ficam adormecidas. E nesse processo todo de aposentadoria, nós observamos o quanto as pessoas são artistas, gostam de desenhar, gostam de fazer poemas, cantar, cozinhar para os amigos. Queremos que elas comecem a voltar-se para essa realidade e descobrir seus projetos de vida.'' De acordo com a psicóloga, serão esses projetos de vida que vão dar um novo sentido para a nova fase.
Mas nem sempre o processo é fácil como parece. ''A aposentadoria para o homem tende a ser mais difícil que para mulher, porque esta normalmente já tem uma segunda jornada em casa. Além disso, tem muito mais oportunidade de desenvolver atividades manuais, artísticas, de culinária. Elas também se envolvem mais com as questões religiosas. Para alguns homens é mais difícil, há aqueles que mal conhecem a casa para a qual vão voltar. Quando esse homem volta para casa, pode ser um transtorno tanto para ele quanto para quem está lá. Para isso, é fundamental o apoio constante da família.''


