Parada no centro de Santo Antônio da Platina diante de um edifício, dona Lucinéia nem notava as pessoas que passavam por ela apressadas. A mulher, que nasceu em meados do século passado, que trabalhou na roça e em casas de família, estava em transe. Acumulava a experiência de dois casamentos, a responsabilidade pela criação de cinco filhos e inúmeras tristezas. Os conhecidos passavam pelo local e faziam de conta que não a viam.
Cabelos encaracolados, presos por um arco, calça jeans, blusa verde e sandália. Em um fenômeno imprevisível, a introspecção da mulher aumentava à proporção inversa do movimento de pessoas ao seu redor. A mulher solitária não viu o sorveteiro, nem se alterou com a ambulância que passou ruidosa nas proximidades. Tampouco a criança que tentou tocá-la provocou qualquer reação.
Exibindo sinais de cansaço, mas sem o menor indício de fraqueza, o rosto da mulher apresenta contornos rígidos. A pele enrugada revela sinais do combate. A luta pela vida. Senão uma vencedora, ao menos sobrevivente. Brasileira, ela trabalhou regularmente até o ano passado em uma frente de trabalho na prefeitura do município. Logo após ter votado no candidato da situação, por sinal o mesmo que a contratou, foi demitida.
Sentada, o corpo arqueado, pés juntos, joelhos dobrados. Os braços parcialmente estendidos. Testa e olhos franzidos. Encolhida em um degrau próximo às sobrelojas do edifício, mantinha nas mãos a salvação. Os dedos, como pontes, se encontravam. Estavam trêmulos e seguravam, com certa dificuldade, um papel. Uma oração. Com a convicção característica dos santos, lia o texto escrito em letras miúdas. Os tons vermelhos revelavam o intercessor. Dona Lucinéia orava para o padroeiro das causas impossíveis. Convicta das graças obtidas junto a São Expedito, pedia a intervenção divina. Não tinha mais forças para encarar o dia-a-dia. Com humildade utilizava o recurso dos santos. A esperança vestida de fé.

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