Um milhão de paranaenses nunca foi ao dentista
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quinta-feira, 10 de abril de 2008
Fábio Galão<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Em números absolutos, não faltam dentistas no Paraná. Segundo o Conselho Regional de Odontologia (CRO-PR), há atualmente no Estado aproximadamente 14 mil cirurgiões dentistas. Isso representa uma relação de um dentista para cada 730 habitantes, proporção que supera em muito o índice mínimo recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), de um cirurgião dentista para cada 1,5 mil habitantes.
Entretanto, esse número não significa que toda a população paranaense tenha fácil acesso a atendimento com profissionais de Odontologia. Numa pesquisa realizada em 2003, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou que aproximadamente 28 milhões de brasileiros nunca haviam se consultado com um dentista. Destes, pouco mais de um milhão eram habitantes do Paraná. A população do Estado é de cerca de 10 milhões.
''Foram criadas opções, mas ainda há muita gente com dificuldade de acesso ao atendimento. Existem situações como locomoção complicada até o local de atendimento e até mesmo a falta de incentivo para a pessoa ir ao dentista. Há tratamentos difíceis, que podem exigir que a pessoa fique horas sem trabalhar. É um entrave principalmente para pessoas de baixa renda'', pondera Jayme Bordini Júnior, coordenador da Clínica Integrada de Odontologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
O professor aponta que, por outro lado, o mercado para os profissionais de Odontologia está se tornando cada vez mais complicado nas grandes cidades. ''Em Curitiba já existe um esgotamento do mercado. Nos grandes centros do interior, também há uma defasagem na acomodação profissional. Na Região Metropolitana e em áreas mais afastadas, porém, ainda existem oportunidades'', afirma o professor.
Ermenson Jorge, presidente do CRO-PR, alerta que o número de cirurgiões dentistas pode dar uma visão equivocada da real situação. ''É preciso ver o serviço que é prestado em termos de qualificação. No Paraná, são apenas 4,4 mil cirurgiões dentistas com alguma especialidade, num universo de 14 mil profissionais'', explica. ''Nós temos 14 faculdades de Odontologia no Paraná. Isso representa mil novos dentistas no mercado por ano. Temos a preocupação de que não sejam abertas mais faculdades. É necessário qualificar as que já existem.''
Jorge comenta que, num cenário tão concorrido, muitos profissionais estão buscando a estabilidade do serviço público. ''Há uns 10, 15 anos, todo mundo preferia o serviço privado. Hoje, o colega que se forma olha com mais atenção para os concursos públicos. Na iniciativa privada, o profissional vai montar o consultório, ter muitos custos e enfrentar uma grande concorrência. Muita gente está preferindo o serviço público. No mercado atual, é um salário razoável'', diz o presidente do CRO-PR.
Ainda assim, nos pequenos municípios, muitas vezes há carência de profissionais. ''Nós passamos um manual para os recém formados com os números de cirurgiões dentistas e de habitantes nos municípios paranaenses. Mas muitos preferem ficar nos grandes centros, para ficar com a família, ou para fazer uma especialização. Há municípios paranaenses com 5 mil habitantes que têm apenas dois cirurgiões dentistas'', aponta Jorge.
Ele acredita que o poder público precisa de estratégias nessa área. ''Há uma proposta dos ministérios da Saúde e da Educação para que sejam propiciados incentivos para os profissionais de Medicina que se disponham a ir para cidades pequenas. Isso poderia ser estendido à Odontologia''.
Antônio Carlos Nardi, secretário municipal de Saúde de Maringá e presidente do Conselho Estadual dos Secretários Municipais de Saúde (Cosems), faz outra consideração: ''O atendimento básico está solidificado nos pequenos municípios, mas não é dada prioridade na saúde pública ao atendimento mais qualificado, porque a demanda não é grande. Assim, é comum os pacientes que precisam de tratamento de média complexidade serem encaminhados para fora.''


