O auxiliar de enfermagem Renato Ferreira, 26 anos, viaja todas as semanas para países diferentes. Neste mês, ele está explorando as terras tórridas de Casablanca, no Marrocos, de onde conhece os principais pontos turísticos. Sem muita dificuldade, ele já foi a quase todos os países europeus, americanos e asiáticos. Mesma sorte tem o chapeiro de lanchonete Roberto Baranhuk, que se especializou, além da geografia, em estudos esotéricos, com mergulhos em páginas antigas sobre o poder da Cabala. Os dois são viajantes de conhecimento e descobriram um máquina barata e acessível para ir aonde querem: as seções especializadas da Biblioteca Pública do Paraná. ‘‘Esta é a única maneira que me permite conhecer novos mundos sem gastar e sair do lugar’’, resume Roberto.
Ele é um dos mais de um milhão de usuários que frequentam a cada mês as salas do prédio da biblioteca, inaugurada em 1954. ‘‘Quem precisa de conhecimento senta-se nessas mesas e descobre tudo’’, diz o estudante Erlon Baranhuk. Atualmente, em busca desse universo, a biblioteca recebe em torno de 4.500 pessoas por dia, responsáveis pela retirada de número equivalente de livros de suas estantes. ‘‘É um dos maiores movimentos do País’’, diz a diretora da instituição, Marilene Zicarelli Millarch.
Esse mergulho cultural pode ser intenso, porque a biblioteca, existente desde 1857 em outro prédio, oferece uma gama de serviços que possibilitam ao usuário saber de tudo. CD-ROMs, discos e fitas reproduzem músicas brasileiras, clássicas e de outras nacionalidades, permitindo também que se possa aprender idiomas sem auxílio de professores. Vídeos com filmes clássicos, outros nem tanto, permitem a quem os assiste estabelecer diálogos inteligentes. Há também jornais, revistas, gibis, livros infantis e clássicos, xadrez, mostras de cinema, exposições, concursos literários e outros serviços. Existem livros que não há em lugar algum do Brasil, como a edição de 1584 de ‘Orlando Furioso’, de Lodovico Ariosto.
Mas tudo isso, que poderia remeter à biblioteca de Alexandria ou às mentalizadas pelos escritores Jorge Luiz Borges e Italo Calvino, está longe do ideal. Falta de dinheiro e espaço fazem com que, lentamente, a Biblioteca Pública do Paraná comece a perder a corrida entre a atualidade do conhecimento, aproximando-se da figura estagnada de livros empoeirados nas prateleiras.
No ano passado, o governo estadual disponibilizou dinheiro suficiente apenas para comprar 369 exemplares, cerca de 33 por mês. ‘‘O recurso é escasso, o que faz com que tenhamos de decidir criteriosamente entre as novidades e os interesses da comunidade por determinado tipo de literatura’’, diz a diretora da biblioteca. Mas, para sorte do leitor (e do governo estadual), existe um grande número de doadores. ‘‘Ainda bem que existe vontade da comunidade em ajudar’’, diz.
Graças a doações, o acervo da biblioteca cresceu em 12.125 exemplares, atingindo, até junho, a marca de 422.140 livros. ‘‘A comunidade doou 47 mil volumes. Desses usamos pouco mais de 11 mil’’, diz. O restante foi repassado para outras bibliotecas do interior. Recentemente, a instituição vem buscando convênios com instituições privadas para aquisição de acervo. ‘‘Mas a falta de lei específica para estas doações afastam patrocinadores’’, comenta Marilene.
‘‘Mas acho que a doação não deveria ser o único sistema para crescer. Afinal, o interesse do governo em difundir o conhecimento deveria ser maior’’, diz o estudante de publicidade Mateus Freitas Demetruck. Para ele, a biblioteca, que antes podia significar uma forma de equiparar as diferenças sociais, hoje estão atrás do que o mercado apresenta. ‘‘Se se quer lançamento é muito difícil encontrar, assim como os livros que venho pesquisando’’, avalia, ao folhear um livro sobre Cabala, tema que se tornou o mais pedido dos usuários recentemente.

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