Um maltrapilho na Faculdade de Direito
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quinta-feira, 09 de maio de 2002
Benedito Teles <br>Equipe Folha 
Santo Antônio da Platina - Um maltrapilho desajeitado se espreguiça e, apesar da chuva torrencial da noite anterior, dá mostras de vigor. Ele havia sobrevivido à chuva e ao frio, mas como na maioria de suas noites não havia sobrevivido à indiferença. Em especial naquela noite se refugiou na segunda coluna, no lado de fora da instituição, que alicerça um prédio de dimensões razoáveis construído para o ensino da Justiça em Jacarezinho.
As nove colunas vermelhas e azuis da Faculdade Estadual de Direito do Norte Pioneiro suportaram por quase 30 anos um sem-número de acadêmicos, incontáveis gerações de juízes, promotores, advogados, fiscais e servidores públicos. Porém, não impediram que o frio e a umidade atingissem aquele homem. Um desafortunado que se abrigou na academia alicerçada pelo sentimento de Justiça. Logo ele, injustiçado em todos os sentidos, vítima da arquitetura desumana de uma Casa Jurídica.
Naquele dia, acadêmico e maltrapilho compartilharam, mesmo que por apenas algumas horas, o mesmo prédio. O fosso intransponível entre eles com o passar das horas aumentava. Na noite anterior ele arrumava com papelões e cobertores sujos sua cama improvisada ao lado da coluna. Enquanto os acadêmicos traziam apressados livros e cadernos para buscar o direito. Apesar da distância, eles buscavam a mesma substância, a Justiça, em formas e meios diferentes.
Mesmo com a afinidade, em relação aos objetivos, os dois não se viam. O maltrapilho, certamente, não sabia que os jovens vigorosos e alinhados eram acadêmicos, muito menos, que dali a alguns anos seriam bacharéis e definiriam as vidas de inúmeras pessoas por meio de sentenças e petições. O acadêmico também não sabia, sequer imaginava, que ali estava parcela de seu ofício, em alguns casos, sequer se importava. Embrutecidos ou distraídos não percebiam a fragilidade do seu semelhante.
Algumas colunas à frente. Uma placa bronze envelhecida trazia as datas e os nomes dos homens que construíram a instituição. A distinta inscrição relatava, como em um pergaminho, para a posteridade a inauguração do prédio que, além de abrigar acadêmicosm, alojaria em 2002, de maneira provisória e precária, um maltrapilho. O prédio, inaugurado em janeiro de 73, trazia também em letras apagadas pelo tempo e pelo ceticismo, próxima à placa de inauguração, uma frase do jurista Rui Barbosa.
Não há nada mais relevante para a vida social do que a formação do sentimento de Justiça. No dia seguinte o andarilho prosseguiu e, apesar de nunca ter lido a frase, ouviu, durante toda a noite, o eco daquelas palavras. Na noite seguinte ele não estava mais ali e ninguém percebeu. Os acadêmicos continuaram a buscar o Direito, a maioria também nunca leu a frase, mas demoraria um pouco mais para ouvi-la ou quem sabe proferi-la.


