Osmani Costa
Imagine um bairro que conte com infra-estru tura completa: rede de coleta de esgoto, água en canada, energia elétrica, rede de telefonia, todas as ruas asfaltadas e serviço de limpeza pública. Que possua creche, igrejas, um trânsito calmo, boa arborização, escolas, praça e baixíssimo índice de criminalidade. E que ainda tenha um comércio quase auto-suficiente e fique bem perto dos hospitais e do centro da cidade.
Este bairro existe, apesar de não estar no mapa da cidade. É a velha e pacata Vila Siam, que aparece nos mapas londrinenses como sendo o Jardim Gayon ou Vila Lolata (zona leste), a cerca de 2 quilômetros do centro. Por não existir oficialmente, também não há precisão sobre o seu tamanho e número de moradores.
Mas não estamos tratando de uma bairro fantasma. Todos os londrinenses que já passaram da adolescência sabem que a Vila Siam fica exatamente ali, próximo do Marco Zero da cidade, entre as avenidas Celso Garcia Cid e Santos Dumont, e entre as ruas São Pedro e Paul Harris. Neste caso, a vila conta com apenas oito quarteirões e todas as suas ruas internas têm nome de santos. Uma segunda corrente de moradores defende que o comprimento do bairro deve ser esticado até a Rua Catarina de Bora, somando-se ao território da vila outros oito quarteirões.
De qualquer maneira, a Siam é pequena e cortada de ponta a ponta pela quase sempre tranquila Avenida São João, uma das principais vias de ligação do centro à zona leste da cidade. O que pouca gente deve saber é que o ‘‘apelido’’ dado ao Jardim Gayon/Vila Lolata pouco tem a ver com aquela popular marca, que virou um tipo de sinônimo de linguiça calabresa.
‘‘O nome, Vila Siam, é mais antigo do que a presença de nossa família aqui. Ele já existia antes de meu pai, Carlos, chegar de Campo Grande, em 1951, para comprar o primeiro pequeno açougue, que depois se tornaria o Frigorífico Siam’’, afirma Adélcio Diehl, que assumiu a empresa há cerca de 15 anos. ‘‘Quando chegamos eu ainda era menino, mas lembro que aqui na Vila Siam as casas eram poucas e de madeira. As ruas eram de terra e, da igreja católica para frente, era tudo cafezal.’’
Efetivamente, o nome Vila Siam passou a ser usado de maneira genérica para designar aquela parte da zona leste - onde na década de 30 se instalaram muitas empresas do comércio madeireiro - a partir de 1937, quando a família Blumenschein montou a Seleção Industrial de Artefatos de Madeira (SIAM), com modernos equipamentos trazidos de São Paulo. Maior empresa daquele período, a SIAM empregava cerca de 100 operários, quando normalmente nas outras madeireiras o número de vagas não passava de dez.
Mas a área só começou a ser ocupada de uma maneira mais ordenada, a partir de loteamentos particulares, no final da década de 40. Até então, apenas algumas casas de madeiras eram construídas, ao redor das serrarias, sem nenhum planejamaneto. A Vila Lolata surgiu com o loteamento vendido por Jacomo Lolata, que fez a doação do terreno onde foi erguida a igreja da Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, a primeira daquela região de Londrina. Em seguida, surgiu o Jardim Gayon, em um loteamente promovido pela família de mesmo nome.
‘‘Com o passar dos anos, o progresso foi chegando. Hoje, as famílias têm aqui tudo o que precisam para viver bem. E, quando falta alguma coisa, estamos a poucos minutos do centro’’, comenta Adélcio Diehl, o herdeiro da ‘marca’ Siam; cuja serraria faliu no início da década de 50. Hoje, já prevalece naquela região a paisagem arquitetônica moderna, inclusive com o surgimento de novos edifícios. Sobraram poucas das antigas casas de madeira. Uma delas é a de número 57 na Avenida São João, pertencente desde 1950 ao casal João e Sofia Montane.
‘‘Quando chegamos aqui, não havia esta avenida e nenhuma rua. Eram uns trilhos de terra em meio aos pomares e plantações de café. As casas, a gente contava nos dedos das mãos’’, conta o ex-borracheiro e frentista de posto aposentado João Montane, 77 anos, que veio para Londrina do interior de São Paulo. ‘‘Aqui sempre foi e continua muito bom para se morar. Todas as famílias se conhecem e se respeitam. Só o que piorou foi o barrulho dos carros à noite, que aumentou bastante.’’
Fica também na Vila Siam a única igreja islâmica da cidade, a Mesquita Muçulmana Rei Faiçal, inaugurada em agosto de 1975. O guarda noturno Ali Kalid, 64 anos, veio do Líbano para Londrina com 17 anos de idade. Depois de morar no centro e em vários bairros, ele escolheu a Vila Siam para fixar residência definitiva, desde o início desta década.
Segundo ele, apesar de algum barulho à noite e da insegurança gerada pelo desemprego, a Siam prossegue sendo um bom lugar para se viver. ‘‘Aqui é bem tranquilo. Tem uma moçada sem serviço e sem escola, que faz bagunça de vez em quando. Mas isso, infelizmente, se tornou normal no país todo nos últimos anos. Em comparação com os demais lugares da cidade que já morei, aqui está bom demais’’, avalia Ali Kalid.
A farmacista Glaucenir Santos Vida, casada, mãe de três filhos menores, mora na Vila Siam há 12 anos, desde que chegou de Ibiporã (15 km a leste de Londrina). ‘‘O bairro está crescendo, melhorando, com a construção de novos prédios. O movimento cresce, a gente fica preocupada. Mas nossa casa nunca foi assaltada. Às vezes, motoristas tiram uns ‘rachas’ na Avenida São João. Mas no geral aqui é muito tranquilo, bom para se viver.’’
A Vila conta com a primeira creche da cidade, a Santa Rita, mantida pela Congregação Filhas de Caridade São Vicente de Paula desde 1961. Atualmente, ela atende a 90 crianças de famílias carentes. A paisagem do pacato bairro mescla novos edifícios, antigas casas, pequenas praças, bares, oficinas, lanchonetes, farmácias, locadoras de vídeos e mercadinhos. Por ser pequena, a Siam não conta com escola, posto de saúde e nem módulo policial. A população - poucas centenas de moradores - não reclama desta pequena deficiência. Ela sabe que os serviços públicos estão à disposição nos bairros vizinhos, a poucos quilômetros de distância.

VILA SIAM
ONDE FICA
Zona leste de Londrina
Nomes ‘oficiais’: Jardim Gayon ou Vila Lolata
‘Apelido’: Vila Siam
Características: infra-estrutura completa, tranquilidade e arborizaçãoFundado há mais de 60 anos ao redor de uma madeireira, bairro da zona leste não existe oficialmente mas é admirado pelos moradores
Josoé de CarvalhoACESSO NOBRETrecho da Avenida São João, uma das principais vias de ligação da zona leste com o centro de LondrinaFotos Josoé de CarvalhoAdélcio Diehl: ‘‘Quando chegamos eu ainda era menino, mas lembro que aqui na Vila Siam as casas eram poucas e de madeira’’João e Sofia Montane: ‘‘Eram uns trilhos de terra em meio aos pomares e plantações de café. As casas, a gente contava nos dedos das mãos’’Glaucenir Santos Vida: ‘‘O bairro está crescendo, melhorando, com a construção de novos prédios. O movimento cresce, a gente fica preocupada’’Ali Kalid: ‘‘Tem uma moçada sem serviço e sem escola, que faz bagunça de vez em quando. Mas isso, infelizmente, se tornou normal no país todo’’

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