UM LADO
Por que fechar a estrada?
No século XIX, quando as florestas ainda cobriam a maior parte do território do Paraná, a criação de um parque para protegê-las poderia parecer desnecessária.
Mesmo assim, o engenheiro André Rebouças ousou defender, em 1876, a criação do Parque Nacional de Guaíra, que se estendia das Sete Quedas, no Rio Paraná, até as Cataratas do Iguaçu.
Rebouças não tinha a consciência da importância da conservação que a ciência nos oferece hoje, mas intuía razões filosóficas e éticas para justificar sua proposta, afirmando que não havia ‘‘melhor doação às gerações futuras do que reservar intactas, livres do ferro e do fogo’’, as magníficas paisagens da região.
Bem menor do que aquele sonhado por Rebouças, o Parque Nacional do Iguaçu foi criado bem mais tarde, em 1939, quando 60% do Paraná ainda estava coberto por florestas.
O ferro e o fogo, tão temidos por Rebouças, devastaram implacavelmente o território do Estado, que chega ao ano 2000 com minguados 8% de remanescentes.
Desses, o Parque Nacional do Iguaçu, com 185 mil hectares, é a maior área de proteção integral, representando 15% do que resta de floresta no Estado. Pelo tamanho da área e pelo bom estado de conservação, o parque é considerado um dos mais importantes do País e, junto com o Parque Nacional de Iguazu, na Argentina, de toda a Bacia do Prata.
O tamanho da área e a enorme variedade de espécies que abriga tornam o parque, hoje, um bem de valor planetário porque a ciência demonstra, sem sombra de dúvida, que a garantia da vida futura está na conservação da diversidade presente.
A devastação das florestas traz consequências perigosas para a água, para o clima e para o controle de pragas e doenças.
Sem a cobertura florestal, o solo perde qualidade e o clima se altera. Faltam os disseminadores de sementes. Escasseiam os controladores de insetos.
Diminuem as oportunidades para a biotecnologia. Rompe-se a cadeia da vida, da qual o homem se imagina o elo mais forte.
A Estrada do Colono fragmenta a área do parque e reduz o potencial de serviços naturais que a floresta pode prestar. Segundo os cientistas, os efeitos dessa fragmentação são diretos, pela morte de animais na estrada, caça e extração de espécies da flora; e indiretos, pela alteração do volume de água no sistema natural de drenagem e de intensidade da luz no interior da floresta, pelo acesso de espécies exóticas, pelo contato com microorganismos estranhos, pela presença de venenos como agrotóxicos e o chumbo contido na gasolina.
Efeitos devastadores, que penetram cada vez mais profundamente no interior da floresta.
A manutenção da Estrada do Colono já colocou o Parque Nacional do Iguaçu na Lista dos Patrimônios da Humanidade em Perigo da Unesco. É o reconhecimento mundial de nossa incapacidade para proteger um bem tão precioso.
Para sair da lista, as exigências são claras: fechar a estrada e recuperar os danos. Devemos isso aos que vão herdar a Terra.
Teresa Urban é ambientalista da Rede Verde de Informações Ambientais