Pode ser no canto de uma parede, em blocos de concreto ou em tubos de PVC, mas o local em que elas mais gostam de se instalar é nos troncos das árvores. As pequenas e pretas abelhas conhecidas por Jataí ou Arapuá são facilmente encontradas na área urbana de Londrina. A convivência com os laboriosos insetos gera curiosidade: Será que elas machucam? Será que produzem um bom mel? A verdade é que assim como seu tamanho, o mal que elas podem causar é extremamente pequeno e se reduz apenas a um leve arranhão ou a uma mecha de cabelos embaraçados.
Um pequeno orifício no tronco de uma árvore localizada na Avenida Bandeirantes, próximo ao cruzamento com a Avenida Duque de Caxias, chama a atenção de quem passa pelo local. Pequenas abelhas podem ser vistas saindo do buraco que, possivelmente, esconde um grande número de insetos.
Pelas características do ninho, a professora do Departamento de Biologia Geral da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Silvia Helena Sofia, acredita se tratar da abelha Jataí, nome popular da espécie Tetragonisca angustula. Segundo ela, esse tipo de abelha gosta de fazer seus ninhos no interior do tronco (oco) de árvores e é a mais conhecida na América Tropical. ''Elas vivem desde Missiones na Argentina até o sul do México. Constróem favos de cera, cuidam da rainha e fazem a limpeza e defesa do ninho. Suas colônias podem conter cerca de 1,5 mil abelhas, na maioria, operárias'', explica.
As pequenas abelhas encontradas com facilidade na cidade têm alta adaptabilidade para ocupar ambientes diversos. Silvia, que é especialista em Ecologia e Conservação de Abelhas, salienta que, com a devastação das matas, as espécies de abelhas sem ferrão têm conseguido ocupar esse tipo de ambiente, ao contrário do que se observa com outras espécies. ''Em Londrina, além da Jataí, encontramos muitos ninhos de Scaptotrigona postica, a Mandaguari, que são bastante defensivas. Também encontramos em ninhos expostos no alto de árvores as Trigona spinipes, conhecida por Arapuá, e a Trigona hyalinata, a Guaxupé''.
Um desses grandes ninhos citados pela especialista está no alto de uma árvore na Rua Itajaí, na Vila Nova (Centro). O tamanho assusta e causa dúvidas em quem passa. ''Isso aí é cupim. Não, não, é formiga'', comenta um transeunte. Mas morador Belardo Zanluchi, que vive na região há 40 anos, tem certeza de se tratar de um ninho de abelhas. ''Essas aí são aquelas abelinhas Arapuá, que grudam no cabelo. O mel dela não é bom porque elas carregam muita sujeira'', comenta, em tom de dúvida.
''Todas as espécies de abelhas sem ferrão produzem mel, pois suas colônias são perenes (permanentes). Contudo, o mel de algumas espécies é impróprio para consumo, pois as operárias destas espécies coletam excremento animal para a construção do ninho, dos potes onde elas armazenam o mel; assim, o mel não deve ser consumido. Mas, este não é o caso da Jataí e várias outras espécies mirins, abelhas que produzem pouco mel e de excelente qualidade. Diz-se que o mel da Jataí é um dos méis melhores e mais limpos que existe'', explica a professora, que afirma também que os insetos são inofensivos. ''O papel ecológico principal das abelhas é a polinização. As abelhas estão nas cidades porque destruímos as matas; elas estão tentando sobreviver ao desmatamento. Não devemos destruir os ninhos para retirar o mel. Elas não atacam, apenas se defendem para proteger seus ninhos''.
Campus
Na parede do Departamento de Computação do Centro de Ciências Exatas (CCE), no campus da UEL, uma enorme colméia impressiona os funcionários. Segundo a professora, lá dentro vivem cerca de 80 mil abelhas. O diretor do CCE, Dirceu Guazzi, trabalha há mais de 20 anos na UEL e há pelo menos dez observa o enxame das abelhas. ''Eu me lembro quando começou a aparecer, era bem pequeno. Hoje está enorme, cresceu bastante. Eu acho que aqui não é um local adequado para elas ficarem, mas também sei que não tem como remover e tirar daqui sem prejudicá-las'', comentou.
Guazzi, que já se habituou com as ''companheiras'', tem procurado se informar sobre a espécie para ter certeza de que as abelhas não causam nenhum mal às pessoas. ''Apesar de serem inofensivas, elas têm umas garrinhas que machucam quando tocam a pele, mas além disso, elas não fazem mal nenhum. O único problema é a questão higiênica mesmo, pois elas costumam transportar restos de sujeira'', comentou.
Mas, apesar do tamanho, o enorme enxame às vezes fica despercebido. Há um ano passando quase todos os dias em frente ao local onde as abelhas vivem, o professor de Química, Fernando Macedo, não havia reparado na colméia. ''Eu nunca tinha visto, mas acho bonito, acho que deve ficar aí. O mel dessas abelhinhas é o melhor que existe''.

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