áComo sempre fazia, ele pegou o jornal e já foi direto para o caderno de classificados. Gostava de ler a seção de Recados. Não que tivesse interesse em cartomantes, videntes e outros habitués daquele espaço, não, o que ele gostava mesmo era de ler os recados de amor anônimos que, volta e meia, apareciam nas páginas do jornal.
No fundo, no fundo, o que ele sonhava mesmo era aparecer ali, um dia, como o destinatário de uma mensagem de amor mandada por alguma mulher. Mas, bah, ninguém se interessava por ele. Já tinha pensado até em mandar um recado para si próprio, mas achou a idéia ridícula, sem contar o medo de ser descoberto.
Também pensou num recado para a sua amada. Certa vez, inclusive, chegou a ir até a porta do jornal, a mensagem pronta na cabeça, mas sua maldita timidez, aliada à idéia de que Cris não só descobriria, como acharia ridícula a sua iniciativa, o fez mudar de idéia e voltar para casa amaldiçoando mais uma vez a sua insegurança.
Naquele dia, mal abriu a página do jornal, já sentiu um calafrio na boca do estômago, misturado com outro que desceu espinhaço abaixo, quando leu o ‘‘Gordinho’’ do cabeçalho do anúncio: é assim que Cris o trata. Ao ler o recado, então - ‘‘Vai continuar fugindo de mim em 97?’’ - seu coração disparou e assim permaneceu até cravar os olhos no ‘‘Crista’’ que encerrava a mensagem.
- Crista! É ela. É ‘‘Cris’’ de Cristina, e ‘‘ta’’ de Tavares. Fui eu quem colocou esse apelido nela, me lembro até do dia...
Enquanto pensava, jornal tremendo nas mãos, recordou da resposta irada que recebeu dela - ‘‘Quem tem crista é galo, gordinho sem graça!’’ - quando, tentando vencer a maldita timidez, quis se fazer de espirituoso chamando-a de ‘‘Crista’’. ‘‘Ficou brava, e agora manda recado pelo jornal, essas mulheres...’’, pensou mais uma vez, enquanto uma decisão - ‘‘Tenho que resolver esse problema’’ - foi tomando vulto em sua cabeça.
Se tivesse o dom da onipresença, muito provavelmente ‘‘Gordinho’’ não teria ido, na noite de Ano Novo, ao encontro de Cristina Tavares. É que, onipresente, ele teria visto, bem longe dali, num boteco da periferia da cidade, alguém gritar para dentro do balcão: ‘‘Ei Crista, você não é mole, hein! Colocou no jornal, cara! Depois dessa o Gordinho tá desmoralizado, não compra fiado mais em lugar nenhum’’.
Uma gargalhada antecede o aparecimento de um mulatinho magro, com uma enorme verruga na testa, óbvio, o motivo do apelido. ‘‘Só o velho Crista aqui pra baixar a crista do Gordinho’’, comentou orgulhoso o dono do botequim, e, ainda gargalhando, completou o raciocínio: ‘‘Vagabundo tem que ser tratado assim’’.
Mas, voltando ao nosso ‘‘Gordinho’’, se ele, ao ler o jornal, não tivesse confundido a sua amada com o velho ‘‘Crista’’, dono do ‘‘Bar do Crista’’, com certeza ainda estaria amargando a timidez que sempre o fazia fugir de tudo. Com a confusão, lá foi ele, logo depois da meia-noite, rumo à boate onde a turma estava reunida.
Claro que levou o maior fora - ‘‘Que jornal, que Crista, tá louco, se toca, cara!’’ - quando chegou com aquela história pra cima de Cristina Tavares. Mas, se os cornos doeram ao perder a sua ‘‘Crista’’, por outro lado teve uma vitória das mais importantes, vital: a certeza de que, de agora em diante, não foge de mais nada. Nem do amor. Nem da vida. E se até ele, o ‘‘Gordinho’’, que não é lá essas coisas, conseguiu levantar a crista, você também, neste Ano Novo, pode conseguir levantar a sua e superar todos os traumas que impedem você de crescer. Consiga isso e, verá, ficará na crista da onda.

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