Um inferno conhecido como 3º Distrito Policial
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de março de 1997
Da Redação 
Josoé de CarvalhoPresos-morcegosCela superlotada do 3º Distrito Policial, zona oeste de Londrina: gente dependurada em ambiente promíscuoInaugurado com pompa pelo então governador Ney Braga, em 1982, o prédio do 3º Distrito da Polícia Civil em Londrina, no jardim Bandeirantes (zona oeste), era considerado muito bom para os objetivos a que se destinava: sediar equipes de delegados, escrivães, investigadores e carcereiros. Eles ficariam responsáveis pela investigação e elucidação dos delitos e crimes cometidos nas redondezas; pela montagem do inquérito e encaminhamento à Justiça; pela prisão provisória de delinquentes pegos em flagrante; pela soltura ou transferência para a prisão definitiva - que na época era feita no Cadeião da rua Sergipe ou em Curitiba.
Muita coisa mudou, para pior, no 3º Distrito, nestes 15 anos. Com a desativação do Cadeião da rua Sergipe, no início de 1994, em consequência da inauguração da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL), quatro distritos (2º, 3º, 4º e 5º) passaram a funcionar como prisões provisórias. Mas nem tão provisórias assim. Com a lentidão da Justiça, os presos foram ficando pelos distritos meses e meses.
A situação no 3º Distrito - o maior da Cidade, com oito celas e 32 vagas - piorou ainda mais na semana passada, com a chegada de 15 presos transferidos do 5º Distrito (zona norte), interditado para reformas pelo juiz da Vara de Execuções Penais e Corregedoria de Presídios, Roberto Ferreira do Valle. Agora, são 65 presos ocupando o espaço que seria para 32.
Cada cela possui apenas um chuveiro, uma pia com torneira e uma latrina no chão, além das duas beliches. Dois presos dormem em cada colchão de solteiro. Outras opções são dormir no chão, em pé ou dependurado - através de panos para não cair - nas grades da porta; são os chamados presos-morcegos. O ar é pesado e o calor terrível. Algumas celas têm infiltração no teto e todas são imundas.
Os presos reclamam ainda da qualidade da comida, quase sempre arroz, feijão, dobradinha ou ovo e macarrão. Eles dizem que alguns estão com Aids, sarna, feridas, tuberculose e outras doenças transmissíveis. Mas que a assistência médica e jurídica nunca passam por lá. Não há um fiapo de luz do sol. Eles estão há muitos meses sen caminhar.
Depois da extinção do cargo de carcereiro no Paraná, por ordem do então governador Roberto Requião, a guarda interna passou a ser feita pelos investigadores. Só um investigador fica responsável por todos os presos. E ele não foi treinado para isso., explica o delegado do 3º Distrito, Joaquim Antonio de Melo.
Isto aqui é pior que campo de concentração nazista. Vivemos em condições subumanas, obrigados a dormir, a comer no chão e a tomar uma água podre que vem de caixas sujas. A sociedade reclama que a gente sai daqui mais violento, que a gente não se recupera na prisão. Mas como se recuperar, se aqui dentro somos tratados pior do que animais?, diz um encarcerado.
Todos os que se dispuseram a falar com a reportagem reclamaram das péssimas condições. O sonho de todos parece ser - além da improvável liberdade - a transferência para a PEL ou para a Colônia Penal Agrícola de Curitiba. Não deixaria de ser um grande avanço.
Osmani Costa


