Paulo San Martin e Alessandra Campos
Especial para a Folha
O império que o reverendo coreano Sun Myung Moon está montando nos municípios de Jardim, Bonito e Porto Murtinho, no Mato Grosso do Sul, age acima da lei. A Polícia Federal e o Departamento de Estrangeiros, órgão vinculado à Secretaria Nacional de Justiça, começaram a realizar este mês uma devassa nas atividades da seita Moon na região. A seita é uma organização com ramificações internacionais, registrada no Brasil como Associação das Famílias para a Unificação e Paz Mundial, e instalada há cinco anos na fazenda New Hope (Nova Esperança), no município de Jardim.
Na semana passada, a Folha descobriu que grupos de estrangeiros que vivem na fazenda da seita encontraram uma forma efetiva de burlar a vigilância do controle de imigração no Brasil. Casais que entraram no País com visto de turista estão registrando seus filhos nascidos na fazenda em cartórios da região e garantindo seu direito de permanecer no Brasil. Por lei, pais de brasileiros também conquistam a cidadania brasileira.
A seita Moon desenvolve-se em ritmo acelerado na região. A prefeitura de Jardim estima que 10% das propriedades agrícolas do município já foram compradas pela Associação para a Unificação e Paz Mundial, nos últimos quatro anos. E as aquisições de terras continuam, numa região considerada estratégica, a fronteira entre Brasil e Paraguai. Representantes do reverendo admitem que sua associação já adquiriu mais de 80 mil hectares de terras no lado paraguaio.
A Polícia Federal e o Incra investigam a possibilidade de um comprometimento ainda mais perigoso para a segurança nacional nestas operações de Moon. Quase todas as áreas compradas por ele estão nas margens de rios que separam Brasil e Paraguai, e poderiam constituir um corredor particular e de difícil fiscalização, que atravessaria a fronteira para ligar os dois países. ‘‘Diante das ações do reverendo Moon, estamos perdendo nossa soberania’’, desabafa o juiz da Comarca de Bonito, Alexandre Antunes da Silva.
As autoridades da região assistem perplexas às operações da Associação pela Paz Universal e lamentam a falta de instrumentos para agir. ‘‘Eles não pagam impostos e, por baixo, o município tem deixado de arrecadar cerca de metade de seu orçamento mensal com os métodos de Moon’’, revela o prefeito de Jardim, Márcio Monteiro (PMDB).
Os métodos de Moon incluem um pouco de tudo. Construções gigantescas e irregulares; contaminação das águas dos rios da região de Jardim e Bonito, considerada um dos paraísos ecológicos brasileiros; utilização de fórmulas desconhecidas para a obtenção de autorizações suspeitas; e, acima de tudo, o uso vertiginoso da sedução do dinheiro: ele chegou a pagar mais de três vezes o valor de mercado por terras que os proprietários se recusavam a vender; comprou por R$ 120 mil um prédio avaliado em R$ 80 mil na principal rua de Bonito; financia veículos de comunicação; presenteou 29 instituições e prefeituras do Estado com ambulâncias zero quilômetro; sorteia eletrodomésticos e televisores e distribui sorvete em reuniões semanais para atrair adeptos entre as populações pobres da região. A força de seu dinheiro já é quase lendária. Nas últimas eleições, folhetos apócrifos circularam nas principais cidades do Mato Grosso do Sul, acusando-o de ter colocado US$ 6 milhões na campanha de um dos candidatos derrotados para o governo do Estado.
E os antigos métodos que levaram os adeptos de Moon a serem perseguidos e expulsos de várias cidades brasileiras, inclusive Londrina, na década de 80, também continuam em ação. A Folha apurou que já houve pelo menos uma acusação de ‘‘lavagem cerebral’’ que teria sido feita com uma jovem de Campo Grande. Para recuperá-la, sua irmã mais velha fingiu-se de adepta e viveu um ano e meio na Fazenda Nova Esperança, em Jardim. Quando conseguiu sair e levar junto a irmã, foi ameaçada de morte e obrigada a pedir proteção policial.
O crescimento da seita Moon no Mato Grosso do Sul também preocupa outras igrejas. Há cinco anos, o padre Rooswelt Medeiros, da paróquia de Bonito, move uma verdadeira cruzada contra a atuação dos representantes de Moon. ‘‘É uma verdadeira máfia’’, dispara. Em 95, católicos e protestantes de Jardim e Bonito se uniram para fazer um abaixo-assinado contra a instalação de Moon na região.
Um ano depois, a Regional Oeste 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) enviou carta ao Ministério da Justiça, assinada por todas as autoridades religiosas do Estado, pedindo investigação dos projetos do reverendo. Na semana passada, durante retiro promovido pela Diocese de Jardim, um dos temas predominantes entre os padres foi o crescimento da seita entre a população.
No mínimo, Moon está provocando uma gigantesca confusão no Mato Grosso do Sul.

Alessandra CamposO reverendo Sun Myung e sua mulher, Hak Ja Han Moon

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