Um herói com sobrenome dos Anjos
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quinta-feira, 03 de janeiro de 2008
Luciano Augusto<br>Reportagem Local 
Poucas semanas depois de uma catástrofe natural ter devastado os cafezais de Londrina, em 1975, a cidade seria surpreendida por outra tragédia que marcaria com sangue sua história. A grande geada daquele ano que havia minado a economia cafeeira da região ainda era assunto corrente entre os londrinenses quando, na tarde do dia 10 de setembro, um assalto frustrado a uma agência bancária ganhou as manchetes de toda a imprensa, inclusive a nacional. Era o primeiro episódio policial do gênero e um homem, o então soldado da Polícia Militar Waldomiro Rodrigues dos Anjos, foi alçado à condição de herói ao evitar o roubo e ainda salvar a vida de um funcionário que havia sido ferido à bala pelo criminoso.
Passados mais de 32 anos, o cabo aposentado com 64 anos de idade ainda guarda os recortes dos jornais da época que reportaram a ação do assaltante Armiro José dos Santos e também os atos de coragem do policial. Ao abrir a pasta com os papéis já amarelados pela ação do tempo, o cabo dos Anjos volta ao passado e parece reviver a tarde que definiria sua tragetória policial.
A FOLHA reencontrou o cabo dos Anjos em sua casa, na cidade de Primeiro de Maio, onde reside desde o começo dos anos 80. Mesmo estando fora de combate desde 1994, quando entrou para a reserva, ele continua praticando esportes e se dedicando à comunidade: mantém a forma com natação e exercícios com halteres e depois segue para as atividades de diretor de um clube da terceira idade do bairro.
Voltando ao 10 de setembro de 1975, o cabo dos Anjos conta que era por volta das 16 horas quando pegou uma carona com uma viatura da Polícia Técnica na sede do 5º Batalhão da PM rumo ao centro da cidade pensando em fazer algumas compras. Ao descer do veículo, no entanto, foi surpreendido com a notícia de que um homem armado havia acabado de render os dois vigias de uma filial do Banco Comércio e Indústria de São Paulo, na avenida Rio de Janeiro. Como a Polícia ainda não havia chegado, ele decidiu agir. Era a pessoa certa, no lugar e na hora certos.
Armado com seu revólver, o policial seguiu até a agência e encontrou a única entrada fechada. Pelo vidro da pesada porta de ferro, observou pessoas em pânico. Não tinha como agir porque não dava para saber quem era o assaltante. Foi quando vi que o subcontador Érico dos Santos fez um gesto com as mãos (insinuando que não havia dinheiro no caixa) para um rapaz e em seguida esse homem atirou no rosto dele, recordou. Num impulso, o policial estilhaçou a vidraça com uma coronhada. O barulho chamou a atenção do criminoso, que revidou com um tiro e por pouco não atingiu o policial. Quando ele reagiu, atirei de volta a uma distância de mais ou menos uns 22 metros e o tiro pegou logo abaixo da orelha dele, descreveu dos Anjos, que fez mais dois disparos até que Armiro caísse ensanguentado no corredor principal do banco.
O policial entrou, apreendeu as três armas usadas pelo criminoso a dele próprio e as duas tomadas dos vigilantes e ainda se preocupou com o funcionário ferido. O contador estava debruçado sobre a mesa e ia morrer asfixiado com o próprio sangue se eu não o ajudasse, comentou. Só então se deu conta de que havia acabado de frustrar o primeiro assalto a banco da história de Londrina.
Chamado de herói pela imprensa, funcionários do banco e pela multidão que acompanhava tudo do lado de fora, o cabo dos Anjos até hoje refuta o rótulo. Seu feito ganhou a capa da FOLHA do dia seguinte e foi noticiado em rede nacional pelo jornalista Cid Moreira, o mítico âncora do Jornal das Oito. Fui pego de surpresa. Na época, a gente tinha amor à farda e sabia que a polícia nos daria todo o apoio. Agi como um policial comum, que tinha que exercer sua missão. Naquele momento, eram frações de segundo e procurei agir com lógica.


