FRATERNIDADE Um grito contra a M I S É R I A Mais de 50 milhões de brasileiros vivem abaixo da linha de pobreza e, desse total, 24 milhões são considerados indigentes Cesar AugustoCesar AugustoSOB A LINHA DA POBREZAMaria de Lurdes Peçanha com um bebê e o filho Ezaquiel: fonte de renda da família com um benefício de R$ 136,00 por mês (texto abaixo). Olhar assustada da criança, retrato da situação de extrema dificuldade (foto ao lado) Lucilia Okamura De Londrina Prostituição infantil, falta de terra para trabalhadores rurais e de teto para moradores das cidades, assaltos, corrupção, precariedade dos serviços básicos de saúde e educação, desemprego, encarcerados sem direitos, dificuldades vividas pelos idosos e portadores de deficiência... As inúmeras situações de desrespeito à dignidade humana e de violência que ocorrem no dia-a-dia são o alvo da Campanha da Fraternidade (CF) 2000. Com o tema ‘‘Dignidade humana e paz – Novo milênio sem exclusões’’, a CF é organizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e, pela primeira vez em 37 anos, está sendo realizada de forma ecumênica, com a participação de sete igrejas cristãs. Segundo o documento divulgado pela CNBB, a paz que é pregada na CF não pode ser encarada somente como ausência de guerra, mas como resultado das relações marcadas pela justiça, solidariedade e amor. ‘‘Na linguagem simples do povo é quando tudo corre como deve ser: criança brincando, comendo bem, estudando; as pessoas sendo respeitadas como pessoas, famílias tranquilas; trabalhador com salário digno sem temer humilhação; idosos se sentindo acolhidos; cada pessoa servindo a comunidade e por ela sendo respeitada.’’ Justamente pela infinidade de situações em que a exclusão se faz presente, fica difícil quantificar o número de pessoas que formam o alvo da campanha. Falando somente do aspecto econômico, 33,9% da população brasileira (cerca de 54 milhões de pessoas) vivem abaixo da linha de pobreza. Desse total, 14% (um contingente de 24 milhões de habitantes) são considerados indigentes – com renda insuficiente para atender as necessidades básicas da alimentação. Os dados, de 1997, são da Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong) e tratam especificamente também dos Estados. No Paraná, por exemplo, 29,6% da população (cerca de 3 milhões) são considerados pobres. O texto base da CF cita outros dados que falam da exclusão: em 1993, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Brasil era um dos nove países do mundo com problemas sérios de escravidão, sob a forma de ‘‘cativeiro da dívida’’; 1% dos proprietários de terra são donos de 46% de todas as terras do País, enquanto existem 4,5 milhões de famílias sem terra. Alguns dos exemplos citados pela CNBB dão a dimensão dos problemas que atingem as crianças e adolescentes. Em 1996, eram 7,5 milhões de crianças e adolescentes trabalhando como adultos. E mais: o Brasil conta com cerca de 50 mil crianças e adolescentes que vivem e trabalham nos lixões, depósitos de lixo a céu aberto. Ainda de acordo com o texto da CNBB, a cada mil nascimentos de crianças indígenas, 200 morrem nos primeiros anos de vida. O índice é 3 a 4 vezes maior à média nacional. O assessor da Comunidade Eclesiástica de Base (Cebs) de Londrina, padre Jorge Pereira Melo, destaca que trata-se de um ‘‘momento de graça’’ o fato de sete igrejas cristãs estarem envolvidas na campanha. ‘‘Cada igreja vai descobrir uma forma eficaz de ação e se ajudar mutuamente’’, explica. Além da Igreja Católica, participam as igrejas Cristã Reformada, Episcopal Anglicana do Brasil, Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Metodista, Ortodoxa Siriana do Brasil e Presbiteriana Unida. Sobre o papel da comunidade na Campanha da Fraternidade, padre Jorge diz que é preciso chamar a atenção de toda a sociedade para a situação de exclusão. Segundo ele, as pessoas devem, inicialmente, tomar consciência da verdadeira realidade de exclusão. ‘‘Se eu não conheço onde estou pisando, como vou partir para uma ação?’, justifica. Em seguida, opina o padre, as pessoas deveriam procurar conhecer e participar das organizações populares e entidades que já trabalham na recuperação da dignidade humana. ‘‘E se existir uma situação que ninguém está atuando diretamente, a comunidade pode criar novas formas de valorização da pessoa humana’’, observa.