Um gigante em 'stand by'
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quinta-feira, 08 de outubro de 2009
Wilhan Santin<BR>Reportagem Local 
Durante mais de quatro décadas - de 1952 a 1993 - um pedaço da Zona Leste de Londrina era efervescente devido a uma cerveja. Mas não pense que é porque o pessoal bebia demais. A efervescência se dava por conta de uma fábrica, que surgiu com o nome de Maltaria e Cervejaria Londrina S.A. e, em 1968, passou a engarrafar a Skol, marca que tomou a liderança no mercado nacional das ''loiras'' prediletas dos brasileiros. A fábrica acabou dando nome ao bairro: ''Cervejaria'', no qual quase tudo girava em torno da indústria e que abrigava muitos de seus trabalhadores.
É por isso que o dia 13 de abril de 1993 ficou marcado como o mais triste da história da Rua Dom Fernando, a do portão principal da fábrica, na qual durante anos e anos só se ouviram conversas animadas de trabalhadores que jogavam conversa fora depois de um dia corrido na linha de produção. Naquele 13 de abril, dezenas de homens derramaram lágrimas nessa rua depois de receber a notícia de que nenhuma garrafa jamais voltaria a ser produzida na unidade Londrina. Era irreversível.
Listas com as datas dos pagamentos de rescisão contratual e as datas dos exames demissionais já estavam afixadas nas paredes. ''Estávamos trabalhando. Era por volta das 19h. Desconfiávamos que aquilo aconteceria. Mandaram a gente fazer fila e deixar o prédio. Um a um fomos revistados e recebemos a notícia de que estávamos desempregados. Teve gente que entrou em desespero'', recorda Oswaldo Zanutto, 66 anos de vida e 28 de trabalho na cervejaria.
Na época do fechamento, a Skol de Londrina tinha 386 funcionários e produzia 5,25 milhões de litros por mês, conforme registra o arquivo da FOLHA. O faturamento da unidade em 1991 foi de 48 milhões de dólares. A cervejaria Brahma, detentora da marca Skol, alegou que a fábrica, já quarentona, estava obsoleta e encravada numa área altamente urbanizada, fato que impedia qualquer ideia de expansão.
Além disso, a alta tributação do governo do Paraná sobre a cerveja, segundo a Brahma, fizera com que o consumo diminuísse no Estado. Houve reuniões, protestos e pedidos desesperados de londrinenses que não queriam ficar desempregados, mas a empresa não recuou. A unidade de Curitiba absorveria a demanda e ponto final.
A cidade sentiu o golpe. Além da queda de arrecadação de impostos houve outros desdobramentos. No Lar Anália Franco, que cuida de crianças orfãs ou filhas de famílias pobres, 80% das receitas provinham de doações da Skol. Seis funcionários tiveram de ser demitidos.
O prédio da cervejaria também sentiu o golpe, mas das marretas e guindastes, necessários para que a Brahma tirasse dali tudo o que pudesse, de alguma forma, continuar a ser útil. Encanamentos de ferro e outras quinquilharias foram vendidos aos ferros-velhos. Contudo, a construção permanece em pé, com suas enormes paredes azulejadas e com os grandes vazios de onde antes estavam tanques de fermentação e de armazenagem das ''geladas''.
A cervejaria Germânica chegou a manifestar interesse em usar a linha de produção logo que a Skol encerrou as atividades, mas a negociação com a Brahma não prosperou. Mais tarde, em 1998, foi a vez da Pepsi dizer que queria reativar o lugar. A intenção não foi para frente.
Em 1999, quando houve a fusão das cervejarias Brahma e Antárctica, criando a maior cervejaria da América Latina, a Secretaria de Acompanhamento Econômico (Seae), do Ministério da Fazenda, recomendou que a Brahma vendesse o prédio da antiga Skol de Londrina - listado entre os principais ativos da empresa - como um dos pré-requisitos para que a fusão fosse aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Assim foi feito e um empresário londrinense do ramo de logística, que pede para não ser identificado, adquiriu a área de aproximadamente 46 mil metros quadrados. Um dos barracões estava alugado à cervejaria Conti, que usava o imóvel apenas para distribuição, mas o desocupou na última semana. Outra parte dos barracões, que abrigavam as engarrafadoras na época da fábrica, estão alugados para uma empresa que trabalha com material reciclável. O prédio que abrigava o maquinário pesado de produção está desocupado desde 1993.
O atual proprietário da área não quis conceder entrevista. Sobre seus planos para o futuro do lugar que um dia foi de trabalho e alegria, servindo a uma pioneira cervejaria no Norte do Paraná, ele se limita a dizer que o local está em ''stand by'', utilizando a expressão que em inglês corresponderia a ''em espera''.


