A exploração sexual comercial de crianças e adolescentes (ESCCA) atinge cerca de
100 mil meninos e meninas no Brasil, conforme dados da Organização Internacional
do Trabalho. Embora o crime seja mais comum nas regiões Norte e Nordeste do
país, esta realidade faz parte do cotidiano da maioria das cidades brasileiras. Em
Londrina a situação não é diferente, conforme mostrou reportagem da FOLHA
publicada no mês passado. Meninos e meninas se prostituem em rodovias de
grande circulação, geralmente, para comprar drogas. A boa notícia é que um projeto
do Sesi tem mostrado que é possível reverter esse quadro.
Através de cursos profissionalizantes, o projeto Vira Vida pretende abrir as portas
para um futuro melhor a menores vítimas de exploração sexual, caracterizada pela
concessão de sexo em troca de algo. A iniciativa é desenvolvida em diversas cidades
brasileiras pelo Sistema S, que além do Sesi engloba o Sesc, Sebrae, Senac e Senai.
Atualmente, 70 adolescentes do sexo feminino e masculino são atendidos pelo
programa lançado em Londrina há três anos. ''O Vira Vira oferece cursos gratuitos de
assistente administrativo. Além das aulas, realizadas em período de contraturno
escolar, os adolescentes ganham material escolar, uniforme, passes de ônibus,
lanches e refeições, além de uma auxílio estudo mensal no valor R$ 500 mensais
durante os 10 meses de duração do curso'', explica a gerente do Sesi Londrina,
Lucilene Thomé Furlan.
Ela destaca que o auxílio estudo é um dos grandes diferenciais do projeto. ''O
maior desafio na hora de propor que os adolescentes abandonassem a prostituição
era a questão financeira. Agora temos algo a oferecer como contrapartida para que
eles abandonem a exploração sexual'', enfatiza Lucilene.
Podem participar do projeto adolescentes de 16 a 21 anos encaminhados pela rede
de proteção formada pelo Conselho Tutelar, Centro de Referência em Assistência
Social (Cras), Centro de Referência em Assistência Social (Creas) e igrejas. A única
exigência para participar do programa é que o integrante volte a estudar.
Como forma de incentivar a permanência no projeto, é aplicada uma multa de R$
16,70 por dia faltado às aulas sem justificativa. O valor é descontado do auxílio
estudo. ''Também são descontados R$ 100 mensais do valor total do auxílio, que
são depositados em uma poupança em nome do adolescente. Dessa forma, ao
terminar o curso o participante terá R$ 1 mil que pode ser usado para investir em
um negócio próprio ou para gastar da forma que quiser'', diz Lucilene.
Segundo ela, o Sesi está firmando parceria com empresas que desenvolvem
projetos de responsabilidade social para empregar os participantes após o término
do curso profissionalizante. ''Até o momento foram formadas duas turmas,
acreditamos que até a conclusão do curso todos já estejam com emrpregos em
vista'', afirma a gerente.
Atendimento psicológico
O Vira Vida também conta com atendimentos psicológico, pedagógico e social.
''Todas as vítimas de exploração sexual sofreram ou ainda sofrem violência
doméstica em casa. Por isso, preferem passar a maior parte do tempo nas ruas. A
grande maioria também não reconhece que está sendo explorada sexualmente.
Geralmente eles acham que como estão tendo lucro financeiro não há exploração.
Porém, essa situação pode gerar problemas psicológicos para o resto da vida'',
explica a psicóloga do programa, Cíntia Miranda Vieira.
Ela ressalta que já é possível constatar uma grande mudança de comportamento
entre os alunos atendidos pelo Vira Vira desde a primeira turma iniciada em março
deste ano. ''Como foram vítimas de violência doméstica, muitos adolescentes eram
agressivos, falavam alto durante o curso e tinham dificuldade de relacionamento. À
medida em que receberam afeto e atenção eles começaram a mudar e hoje estão
felizes e com planos profissionais e pessoais'', diz Cíntia.

mockup