Um feliz encontro
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 20 de março de 2002
Ana Paula Nascimento 
Londrina No exercício da profissão de jornalista não é todo dia que trabalhamos com pautas interessantes. Pauta, para quem não sabe, é o assunto que é notícia, do qual temos que pesquisar, apurar e redigir a informação de forma imparcial e crítica. Dizem que o bom jornalista é aquele que transforma qualquer assunto em algo interessante. Mas não é bem assim. Tem dia que o assunto é duro de roer.
No entanto, vez ou outra, nos surpreendemos com as pautas e, principalmente, com os personagens, até então anônimos, que encontramos por acaso. José dos Santos, o seo Zé Baiano, é um deles. Morador do Patrimônio Regina há mais de 30 anos, Seo Zé Baiano nunca mais voltou para a sua terra natal.
Nascido no interior da Bahia, mas criado desde sempre em Aracaju, ele diz que sente falta é dos amigos. Órfão de pai e mãe, foi criado por parentes e mais pelo mundo, como gosta de destacar. Vaqueiro, sempre lidou com gado. Entre as muitas histórias que viveu, porque a leitura é fraca, mas a cabeça é grande para pensar, conta que um de seus tios foi cabra de Lampião, e que só não morreu quando a polícia invadiu o acampamento do cangaceiro porque estava fazendo ronda em outras bandas.
De todas as idas e vindas da vida, acabou indo trabalhar em uma fazenda do interior de Minas Gerais. Lá, recém-casado, continuava a trabalhar com gado. De repente, uma desgraça. Sua esposa e seu filho, em fase de amamentação, sofrem graves queimaduras. Foi um acidente com leite fervendo. O menino viveu poucos dias e a mulher, quase um ano, relembra. Desgostoso da vida, saiu pelo mundo e se sentia como louco.
Passado um tempo, conhece Junselina. Durante o namoro, o pai dela morre e o proprietário da fazenda quer enterrá-lo no meio do pasto. Só um cabra da peste pra pensar um coisa dessa, não é mesmo?, questiona, nervoso, Zé Baiano. Vendi algumas coisas, peguei dinheiro emprestado e fiz um enterro nos conforme, conta.
Passado a dor, decidem trilhar um novo rumo: Zé Baiano, Junselina e o primeiro filho dos dois. Tomam ônibus, com destino a Belo Horizonte. No caminho, encontraram amigos vindo para o Paraná. Lá se pega dinheiro, de rastelo, falavam os amigos.
Seo Zé Baiano se anima e apesar do assalto que sofrem na pousada, em Belo Horizonte, decidem conhecer a terra roxa. Chegam por Maringá e logo arranjam emprego em uma fazenda. Sempre lidando com gado, o tempo passa. Em Londrina, acabou ficando no Patrimônio Regina. Teve filhos, netos... A vontade de voltar no Nordeste é para rever os amigos. Para morar, aqui é melhor. Dos amigos que continuam lá, diz que são teimosos.
Depois de tanta prosa, já está na hora de voltar para o jornal. Agradeço a sua atenção. Ele insiste que temos que tomar um café e diz que a nossa visita foi uma ótima surpresa. Vamos embora, eu e o fotógrafo César Augusto, com a certeza de que a história do Seo Zé Baiano não deve virar a manchete do dia, mas que com certeza é sinônimo de entusiasmo, luta e esperança.


