Astorga - Nas primeiras décadas da colonização do Norte do Paraná, centenas de famílias de diversas regiões do Brasil e do mundo desembarcaram nas cidades da região - que na época não passavam de vilarejos - em busca da riqueza que todos diziam brotar nos pés de café. Em especial, os mineiros e paulistas vieram em grande número.
Sebastião Pereira Cintra veio de Minas Gerais, mais especificamente de Jacuí. Ele tinha dois anos quando a família dele desembarcou em Rolândia, em 1944. Ainda criança ele perdeu a mãe, que morrera por doença, e viu o pai ir embora com outra mulher. Foi quando ele começou a morar com tios.
Com 9 anos de idade, o garotinho mineiro colocou uma caixa de engraxate nas costas, ignorou a deficiência física em uma das pernas e foi ganhar a vida em Astorga. O ano era 1951. Ele chegou a morar algum tempo na rua, até ser adotado por um taxista e uma dona-de-casa. ''Quando eu cheguei na família já eram oito filhos. Depois da minha chegada nasceram mais sete. Meu pai adotivo não tinha estudo, mas era um homem fantástico'', recorda-se Cintra, fazendo referência ao taxista que dirigia um Ford Mercury pelas estradas de terra da região, levando gente de uma cidadezinha para outra.
Com uma família tão grande, era preciso trabalhar para ajudar em casa. Felizmente o negócio de engraxar sapatos ia de vento em popa. Cintra atendia mais de 20 fregueses por dia. Como as ruas eram todas de terra, não havia sapato que parasse limpo. Além disso, praticamente não existiam tênis.
''Meu pai me falava para trabalhar bastante para evitar ficar pensando bobagens. Eu segui o conselho à risca. Como tinha a questão da deficiência física, eu precisava ir além dos outros. A primeira vez que coloquei um sapato nos pés foi aos 16 anos, pois precisava fazer um calçado especial e isso não era possível porque eu estava em fase de crescimento... Hoje tudo é mais fácil. No meu tempo de criança, cada aluno tinha que levar a sua própria água em um cantil para a escola. Durante os cinco anos que trabalhei como engraxate o meu almoço era pão com mortadela. Hoje não posso nem sentir cheiro de mortadela'', vai recordando Cintra, com lágimas nos olhos.
Ele realmente tem motivos para se emocionar. O ex-menino de rua foi importante para a história de Astorga, município que hoje tem 24 mil habitantes. Com um espírito de liderança impressionante, Cintra criou e dirigiu a fanfarra, fundou e presidiu a Associação dos Funcionários Municipais, foi repórter-colaborador de diversos jornais do Paraná - chegando a escrever para a FOLHA, foi professor durante 10 anos e funcionário público municipal por 35 anos, sem faltar nenhum dia ao serviço.
Atualmente, mesmo aposentado, Cintra continua trabalhando na prefeitura. Ele dirige a Junta de Serviço Militar, onde 300 rapazes astorguenses se alistam todos os anos para o serviço militar obrigatório. ''Minha função aqui é atendê-los com o máximo de carinho, providenciando os documentos que precisam. No serviço público tem que ser assim. É preciso trabalhar com amor'', ensina.
Casado e pai de três filhos, ele se declara um homem feliz. Na pequena cidade onde mora, a história de Cintra é conhecida. Há dois anos ele recebeu a Comenda do Brasão do Município de Astorga, uma justa homenagem para quem soube usar o trabalho e a força de vontade para driblar as dificuldades.

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