Um espetáculo nas alturas
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sexta-feira, 04 de abril de 2008
Micaela Orikasa<br>Reportagem Local 
Todos os anos, elas chegam em bando, sobrevoam o céu de Cambé (13 quilômetros a Oeste de Londrina) executando as mais espetaculares acrobacias e, por fim, pousam na velha árvore central da Praça Getúlio Vargas, à procura de aconchego e uma tranquila noite de sono. Quem já presenciou ou pelo menos ouviu falar no show que as andorinhas fazem todos os anos na cidade, sabe que a apresentação é digna de ser contemplada por um grande público.
Deslumbrado com a imagem, José Sachsida, morador de Cambé há 20 anos, diz que não perde nenhum dia e avisa que, para aproveitar o show, é preciso chegar à praça antes das 18 horas. ''É algo para se admirar mesmo'', justifica o espectador, que considera o evento ''uma verdadeira obra da natureza''.
Para o professor Marcos Massaaki Shiozawa, especialista em animais silvestres e em parasitologia veterinária, da Universidade Norte do Paraná (Unopar), a aventura das andorinhas é vista como um fenômeno de migração, comum a todas as aves. ''Elas vêm especialmente pela oferta de alimentos nas lavouras, que são os insetos'', explica. Segundo ele, ao entardecer, elas buscam um ambiente de pouso seguro, longe de predadores. Fato que justifica as visitas diárias à pequena cidade. ''Mas elas não permanecem para sempre no local. Quando a oferta de alimento diminui, elas buscam outras fontes'', comenta o especialista, referindo-se ao período de permanência, de aproximadamente um mês.
Mas mesmo que a visita seja rápida, o que importa para muitos moradores é a festa que as pequenas aves fazem. O alvoroço é tão grande que a moradora Alice de Oliveira diz que é impossível passar despercebido. E como todo evento tem sua caixinha de sugestões e reclamações, Alice aproveita para registrar a dela. ''É muito bonito, mas elas fazem muita sujeira e o mau cheiro é terrível. Como a praça fica ao lado do Terminal Urbano, os passageiros sempre acabam sendo bombardeados'', afirma.
Para manter a praça limpa e poupar os moradores do odor, a Prefeitura de Cambé, através da Secretaria Municipal de Obras, realiza uma limpeza diária no local. ''Elas passam a noite e vão embora bem cedinho. É nessa hora que enviamos uma equipe para lavar a praça. Tem dias que a sujeira é tão grossa que além de água precisamos usar sabão e produto químico'', diz Paulo Gomes Sobrinho, diretor do Departamento de Obras.
De acordo com Shiozawa, o serviço de limpeza é essencial para proteger a população, já que o odor das fezes pode comprometer a saúde das pessoas, principalmente as alérgicas. ''As andorinhas consomem muita proteína e por isso, a presença de ácido úrico nas fezes é bem maior do que em outras aves'', explica.
O taxista Miguel Marques, que possui um ponto na praça, acompanha o fenômemo há 28 anos. Segundo ele, nos dois anos anteriores as andorinhas não apareceram por lá. Fato que o deixou até com saudade. ''Me acostumei com a visita delas'', comenta ele, que pelo convívio até virou um especialista no assunto. ''Se o tempo estiver fechado ou chuvoso elas chegam bem mais cedo. Parece que elas se comunicam, porque tudo o que fazem é sincronizado '', afirma Marques, que este ano estranhou o atraso das aves, que só chegaram à cidade anteontem. Normalmente a visita é feita em janeiro.
''Esse atraso tem relação direta com o aquecimento global, que influencia muito a vida das aves. Quanto mais quente, maior é a proliferação de insetos e isso, para as andorinhas, significa um banquete'', afirma Shiozawa.
Para o taxista, se depender do público, as andorinhas nunca deixarão de descansar na velha árvore de Cambé. ''Tenho certeza que elas se sentem bem acolhidas aqui, como os próprios moradores''.


